(*) E a ti?
O que te ofereceu a recuperação?
interrogações e testemunhos sobre ANOREXIA e BULIMIA para quem se esqueceu e não se esqueceu delas...
Interrogo-me muitas vezes sobre o quando e o porquê de ter tido anorexia nervosa. Foi há décadas (sim, décadas). Tenho quase a certeza que a doença me 'apanhou' numa fase de extremo cansaço depois de um qualquer período de exames em que existindo múltiplas razões objectivas para estar com a auto-estima elevada, me sentia muito deprimida. O perfeccionismo acompanha muitos dos doentes com anorexia (artigo científico sobre o assunto aqui; estudo com base em estudantes portugueses aqui). Nesta época de exames (em que por uma décima se pode alcançar ou perder a entrada "no-curso-com-que-sempre-se-sonhou'') o perfeccionismo, o stress, a depressão...podem agudizar-se. Alerta.
" Na nossa prática clínica inquirimos 1000 indivíduos com doenças do comportamento alimentar. Os resultados mostraram que as pessoas com anorexia nervosa ocupam 90% a 100% do tempo em que estão acordadas a pensar em comida, peso e fome; para além disso sonham com comida e podem ter o sono perturbado pela fome. Os doentes com bulimia referiram que gastavam 70-a 90% do tempo em que estavam acordados a pensar em comida ou em assuntos relacionados com o peso. (...) Por comparação, as mulheres com hábitos alimentares normais gastavam 10 a 15 minutos a pensarem em alimentação, peso ou fome" Fonte original: Reiff D and Lampson-Reiff KK. Eating Disorders: Nutrition Therapy in the Recovery Process. Mercer Island, WA: Life Enterprises, 1999. Fonte secundária:NEDA.
Ter uma imagem distorcida do próprio corpo é várias vezes referido como um sintoma dos doentes anorécticos. Sentirem-se gordas/os mesmo quando o índice de massa corporal (IMC) está em níveis tão baixos que a vida se encontra em risco ( IMC, relação entre peso e altura que permite quantificar as situações de magreza ou obesidade). Os ossos espetam-se para fora da pele, mas mesmo assim os doentes acham-se 'veêm-se" gordos. Contudo, isso não é verdade para todos os doentes. Como foi divulgado em dois artigos de Novembro na revista Psychological Medicine podem existir também doentes que olhando para o espelho se apercebem de que estão muito magros, mas apesar disso não conseguem parar os comportamentos anorécticos.Eu fui uma delas pois estavam muito magra e via-me ao espelho magra (mas nunca 'suficientemente magra') mas recentemente, em contacto com outras doentes e ex-doentes apercebi-me que não fui excepção, elas também se viam magras ou esqueléticas ao espelho).Independentemente de estarmos ou não afectados por uma doença de comportamento alimentar, o que vimos no espelho depende de vários factores, como informam as notas seguintes etiradas do site espanhol STOP OBSESION . Para uma explicação mais detalhada sobre os padrões estéticos, pode ler-se (em espanhol) o artigo de Carmen Bañuelos Madera (aqui , no arquivo de documentos deste blogue; contributos e sugestões para or arquivo são mais que bem-vindos)
Centrar exclusivamente o tratamento da anorexia na alimentação é um erro grave. Quem sofre de um distúrbio alimentar está a utilizar um mecanismo negativo para lidar com as emoções desagradáveis. Em cada um dos anorécticos existe uma causa ou um conjunto de causas e o sofrimento que provocam tem que ser curado, cada um têm que buscar e constuir formas alternativas saudáveis de lidar com a vida. Ter em conta todas as áreas de um distúrbio alimentar é fundamental para a recuperação da/o doente... stress, sofrimento (passado e presente), aprender a lidar com as emoções, em paralelo com aprender alimentar-se de modo saudável. Aprender a não usar a comida como um mecanismo para enfrentar as questões que estão na raiz do comportamento anoréctico é essencial. Os amigos e familiares por vezes pensam..."se eu conseguir obrigá-la/o a comer ele/ela conseguirá resolver o problema". O apoio na alimentação é essencial, mas não suficiente. [Fonte:tradução adaptada de texto original (em inglês) aqui]. Da experiência que vivi tenho POUCAS certezas e MUITAS dúvidas. Das certezas: (1) o problema não estava no prato, estava na cabeça, na alma, no coração, ou onde quer que os meus sentires se localizassem (...)
Os outros. Quem são os outros? os amigos, os colegas, os irmãos, os pais, os companheiros, os professores, os médicos etc. Alguns outros podem ser muito importantes quer no desencadear da doença quer na recuperação. Uma frase aparentemente inocente sobre 'estás mais gorda' pode ser o gatilho. Outra dizendo que 'estás óptima assim mais magra' pode alimentar a doença. Outra dizendo ' estás bastante mais magra, estás com algum problema de saúde?' pode ajudar. Ou não. Para quem quer ajudar alguém que sofre de anorexia nervosa é difícil encontrar as palavras e acções certas. O momento e o local exactos. Porque quem está doente se debate com contradições múltiplas.
Eu tinha muitas vezes a imagem de estar num abismo e chegar um anjo por trás de mim segurar-me de leve e eu não cair . Ou então estar numa cova muito funda em que olhava para cima via luz, por mais que pedisse ajuda (e não conseguia gritar) não me ouviam e havia alguém que espreitava lá no alto contra a luz e chamava e enviava uma espécie de corda. Mas não tenho a certeza de ser uma corda forte era mais um fio ou parecido. O anjo salvador pode ser gente(s) ou coisa(s). Ajudam. Ajudam-nos ...se os deixarmos ajudar-nos.

O meu corpo (frágil, diziam) deixou-se aprisionar
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