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os 10 posts mais lidos (esta semana) seguidos dos posts mais recentes (26 Outubro 2016):

Nov 24, 2009

>> tan ge ri na, tan ge ri na

FRUTOS
Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas;
tangerina, tangerina.

Eugénio de Andrade,
As Mãos e os Frutos

>> Calling all ED sufferers

Recebemos da Carrie Arnold (ver mais sobre esta autora aqui) a informação abaixo referente a um livro que se encontra em preparação por June Alexander e outros autores e que está a recolher testemunhos diversos (apelo à participação abaixo). À esquerda capa de outro livro (My kid is back) de June Alexander escrito com Daniel le Grange( Medical Center, Chicago University)
A solicitação de testemunhos (eng):
"ED sufferers and caregivers have an opportunity to share their experience in a new international textbook aimed at educating primary care health practitioners. The book, co-authored by June Alexander and Professor Janet Treasure (King's College London), will be published by Routledge (UK) in 2011. Carrie is among those contributing their story in this exciting new book.
June particularly would like to hear from you if you:
--have experienced DBT or know a family member who has;
--have experienced CBT;
--are an elite female athlete who has suffered AN;
--are an Hispanic family, or black family, whose child developed AN and the family assisted recovery through FBT; or
--are a sufferer of bulimia who has experienced/is experiencing a drug therapy strategy.
If you fit any of the above criteria, and are willing to share your story, please contact June who will arrange to collect your story via email, Skype or phone. Anonymity is assured unless specifically stated
. Write to June Alexander at june@junealexander.com or Carrie at carrie@edbites.com For more details about June go to http://www.junealexander.com/"

Nov 23, 2009

>> rio e margens

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem” B. Brecht
Foto: flickr CC (aqui)

Nov 20, 2009

>> o coração é um músculo...

"Se o corpo humano não receber comida suficiente, começa a definhar: entre outras coisas, queima a proteína dos músculos, e o coração é um músculo. As pessoas com anorexia correm o risco de enfraquecer o coração e podem até morrer com um ataque cardíaco."
Texto encontrado num interessante site, Diálogo de Gerações (aqui). Nele é apresentada a vida de Kim, 13 anos, (personagem fictícia), desde os primeiros sinais de anorexia até ao tratamento. Relata episódios comuns da vida de uma adolescente a que vai juntando informação e comentários numa linguagem muito acessível para os muito jovens. Os textos em português da história de Kim fazem parte do livro de Janine Amos "Que efeitos tem a anorexia no corpo e mente de Kim?" Everest Editora, 2004, Brasil.Título original"Why Won't Kim Eat? ". O texto é em certos pontos 'adocicado' evitando dramatismos e relatos 'sensíveis' sempre existentes nas histórias reais. Adoptando um estilo descritivo de situações e evitando detalhes sobre os sentimentos que atravessam quem nelas participa. Mas compreende-se o motivo: é literatura dirigida a um público muito jovem, de 13 ou menos anos.
Foto flickr cc (aqui)

Nov 19, 2009

>> Ana e Mia um Mundo Falso


Este site Anorexia e Bulimia um Falso Mundo existe disponível em várias línguas (o link para a versão portuguesa está infelizmente quebrado).Aparentemente e segundo notícia de 2007 (aqui) é uma iniciativa de duas organizações não governamentais (ONGs) uma brasileira e uma espanhola mas apenas a última parece estar activa e com o apoio do municipio de Madrid. A versão cujo texto se encontra mais completo é a espanhola. Faz uma análise e esclarece algumas das incorrecções e falsidades dos blogues pró anorexia e bulimia. Para além do conteúdo que é de facto muito interessante (pena a autoria dos textos não estar explícita) são também páginas esteticamente muitos bonitas. Fica a ideia de visita e a promessa de divulgarmos em português alguns dos textos. Porque informar é necessário e urgente. Tive conhecimento deste site pelo blogue Pasos Y Pensamientos.

Nov 17, 2009

>> Coragem escreve-se com S

Coragem
2009-11-15 por Sofia
"Sou rapariga, tenho 16 anos e frequento o 12ºano.
Há já algum tempo que pensava em deixar aqui uma opiniao mas, só agora fui capaz de o fazer.
Sempre exigi o máximo de mim, levava o perfeccionismo ao máximo. Nunca gostei de mim mesma mas nao falava disso, como que essa omissao que eu fazia de mim me fizesse esconder dos "outros" - pura ilusão.
Há cerca de 3 anos atrás decidi começar a fazer uma dieta. E consegui. Perdi 5, 10, 15, 20kg; julgava-me capaz de controlar a situaçao e ignorava tudo aquilo que me diziam.
Perdi completamente a noçao da realidade. Quando dei por mim estava mergulhada numa anorexia e depressão profundas. Desliguei de tudo e todos. Deixei ter objectivos, sonhos, passatempos e estabilidade emocional. Vivia, para perder peso!
Era obcessivo: contava as calorias de tudo aquilo que comia, mentia aos meus pais sobre a comida (quando sozinha nao comia o que quer que fosse), era doentio!
A minha mae ja nao sabia como lidar com a situaçao. Muitas vezes quis desistir e eu também - aquilo nao era viver. Nada me dava prazer, excepto pesar-me e ver a balança sempre a descer.
A minha família definhava de dia para dia, como eu, de resto.
Nao dormia, nao comia, nao falava com ninguém, perdi a contas às vezes que deitei comida pela sanita ou na balde do lixo. Perdi-lhe a conta.
Poucos foram os dias em que fui para a escola sem ser a chorar - estava no limite, limite de tudo.
A agonia em que vivia parecia suplantar-se a tudo o resto; eu nao era feliz, queria parar mas nao conseguia. Queria parar mas já nao conseguia!
Viver daquela maneira era um suplício, algo que cada vez mais parecia ser impossível de suportar.
Os psicólogos, os nutricionistas, os avisos nada resultava. Embora (apenas parcialmente) consciente da debilidade que estava continuava a nao comer... Uma noite, após uma discussao enorme com os meus pais, tomei cerca de 14,15 calmantes. Queria dormir, dormir para sempre.
Nao tinha forças p'ra lutar mas, também nao era justo "obrigar" os pais a viver daquela maneira. (...) Ainda hoje, me culpo por esse acto (cobarde talvez mas, mais ainda, desesperado)
Ninguém imagina o que é o dia-a-dia de uma anorexia, ninguém imagina.
Ironicamente, a tentiva de a terminar talvez me tenha trazido de novo a ela, à vida!
Lembro-me, de chorar abraçada à minha mae e de lhe suplicar ajuda - uma ajuda "extra" que ela tantas vezes me ofereceu e eu tantas outras recusei. Aceitei, finalmente, a ajuda de um profissional. (A 1ª grande vitória de uma guerra que se arrastava há dois anos)
Cerca de duas semanas depois, fui à 1ª consulta com o Dr. Roma Torres; estava nessa altura do limite do peso mínimo e nessa mesma consulta o Dr. fez-me um plano alimentar. À medida que ele escrevia as refeiçoes, as lágrimas escorriam-me face abaixo. Pensava excessiva a quantidade de comida que ele me estava recomendar; De lágrimas nos olhos, vim para casa com o plano alimentar na mao. Nao o cumpri, minimamente.
15 dias depois lá estava eu para mais uma consulta, tinha perdido 2kg - o que era "proibido" de acontecer. Prometi ao Dr. e à minha mae que aquilo nao mais aconteceria e que na próxima consulta eu já havia recuperado o peso perdido. 15 dias mais tarde, lá estava eu novamente para uma consulta. O Dr. manda-me para o balança e o peso estava igual ao de há duas semanas atrás - nao tinha emagrecido, mas também nao tinha recuperado o peso como eu havia prometido.
Estava eu, o Dr. e a minha mae no consultório quando o telefone toca. Era a mae de outra paciente a ultimar os pormenores do internamento da filha - também ela vítima de uma anorexia nervosa. Eu, feita em lágrimas, e a minha mae assistimos à conversa do Dr. Roma Torres. Assim que termina a chamado, o Dr. olha para mim e diz-me "isto é o que lhe vai acontecer, senao começar a alimentar-se devidamente".
Uma vez mais, vim para casa a chorar. Estava como que presa num problema que me consumia, segundo após segundo. Mais uma discussao "forte" com a minha mae nessa noite. Discussao essa que me fez tomar consciência de que a poderia perder! A ela, aos meus amigos, à minha felicidade, ao meu futuro. O internamento era ... o "fim". Um fim que eu nao queria.
Estava na altura de dizer basta, com determinação e com vontade, de facto. A satisfaçao que o constante emagrecimento me provoca tinha de ser vencido pelo amor que eu ainda tinha à vida, aos meus amigos, à minha família e sobretudo a ela - à minha grande mae.
Por ela, por mim, por nós percebi que viver vale a pena! Sorrir vale a pena; lutar vale a pena; ser feliz vale a pena.
Hoje, melhor, ainda caio na tentaçao de olhar p'ras calorias ou de evitar certo tipo de alimentos. Ainda caio nessa tentaçao, mas cada vez menos.
Recuperei o brilho no olhar, a estabilidade emocional e familiar, o sonho da entrada em medicina, o gosto pela poesia e, sobretudo, o prazer de viver. Cada dia é, para mim, uma vitória, uma batalha vencida de uma guerra que cheguei a julgar ser incapaz de ultrapassar.
Hoje sei que nao é assim, o ser humano tem limtes de resistência enexcedíveis.
A todas (os) aqueles que se encontram numa situaçao como aquela que eu vivi, peço-lhes que Lutem, porque viver "vale sempre a pena".
Como um dia um amigo me disse, "é preciso viver nao apenas exitir e a vida é uma vitória mesmo que nem sempre ganhe"!
Coragem!
"
Este texto da Sofia foi publicado originalmente na página da afaab. Escrevi à autora a pedir autorização para a sua publicação neste blogue. Respondeu-me terminando assim:
"Mas o mais importante é vencer; histórias como a minha e como a sua são um incentivo à luta daqueles que se debatem com a guerra que é (sobre)viver numa anorexia. Tal como me ajudaram a mim, é com todo o gosto que disponibilizo o meu testemunho para ajudar todos aqueles que mais necessitam. Pois, quando frágeis, toda a ajuda nos parece pouca e, como tal, quanto maior os recursos fornecidos mais pessoas poderemos ajudar e maior é o conforto connosco mesmos.Nem que seja uma pessoa, já valeu a pena ter publicado o meu testemunho."
Obrigada Sofia !
Imagem: flickr andersn (aqui)

>> mãe partilha de dor


No site da afaab, encontra-se um testemunho com o título de PARTILHA DE DOR escrito pela mãe de uma jovem com anorexia cuja leitura nos ensina muito sobre os danos, alguns irreparáveis, da doença. Recomendamos a leitura de todo o testemunho (aqui), que se inicia com as palavras: "Quando descobri que a Inês sofria de anorexia, mergulhei num turbilhão de sentimentos: perplexidade, insegurança, medo, revolta e, claro, a sensação de culpa que leva à inevitável questão: 'em que é que falhei?' . E é neste estado de atordoamento geral que temos de partir para a acção: procurar ajuda especializada, buscar desenfreadamente toda a informação que nos consiga esclarecer as dúvidas e acalmar o espírito inquieto. Mas, acreditem, o diagnóstico imprime na dinâmica familiar um calendário emocional muito nítido: a partir desse momento há um “antes” e um “depois”. E então sucedem-se ...” (cont. aqui).
fotografia: flickr cc (aqui)

>> Outros : Milhões e milhões

Um projecto do fotógrafo Yann Arthus-Bertrand conhecido por magníficas fotografias aéreas. Depois de muito fotografar a partir do ar sentiu necessidade de descer à terra e conhecer mais sobre o que pensam os outros, essa multidão que nos acompanha em todo o mundo. Recolheu testemunhos em pequenos videos em todas as línguas (muitos estão traduzidos) e continentes sobre os sonhos, os medos, as alegrias.
Imagem: um dos ecrãs do site de Yann Arthus-Bertrand com imagem de um dos videos e lista à esquerda de alguns dos temas (aqui)

Nov 16, 2009

>> ouvir um violino até na lama

CHOVE!
Chove...
Mas isso que importa!
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
Poema de José Gomes Ferreira

Foto flick cc (aqui)

Nov 15, 2009

>> dentro de grandes blocos de gelo

BLOCOS
É isto vivemos dentro
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo

Blocos, Poema de David Mourão-Ferreira
Imagem:Captured in ice by naustvik / © All rights reserved
http://bighugelabs.com/onblack.php?id=4017272435&size=large

Nov 14, 2009

>> Apoio a Familiares e Amigos. Onde? (actualizada 17 nov)

A AFAAB tem sede em Matosinhos, Núcleos no PORTO (reuniões regulares no São João de que vamos dando notícia nest blog, a próxima reunião será dia 27 de Novembro às 21:30 ), BRAGA, LISBOA e FARO. Está em reactivação um núcleo em COIMBRA. Seguem os contactos recolhidos na página da AFAAB:
BRAGA: Helena Campos 25 361 25 08 helena.f.campos@seg-social.pt
FARO: Guiomar Paulo 28 999 14 28 guiomarpaulo342@hotmail.com
LISBOA: José Delgado 21 432 19 67 jjcdelgado@mail.cp.pt
217 972 110 ou 914 929 928 (2ª feira a 5ª das 14h-17h); Próxima reunião: 27 de Novembro 21:30, 2009-11-27 - NDCA - Rua Sousa Lopes, 63-C -LISBOA (Frente ao CC Gemini) pelas 21H30
MATOSINHOS: 91 492 99 28 (Todos os dias);Sede da AFAAB:Rua de Augusto Gomes, 313 (traseiras) Apartado 2198; 4450-999 MATOSINHOS; Atendimento às 2ª, 4ª e 6ª feiras das 15H às 18H ; 22 938 56 44 (2ª,4ª e 6ª feira das 15H às 18H); 91 492 99 28 (Todos os dias); 22 200 00 42; afaab@sapo.pt
PORTO: 91 492 99 28

>> ( não) Centrar apenas na comida ...

Centrar exclusivamente o tratamento da anorexia na alimentação é um erro grave. Quem sofre de um distúrbio alimentar está a utilizar um mecanismo negativo para lidar com as emoções desagradáveis. Em cada um dos anorécticos existe uma causa ou um conjunto de causas e o sofrimento que provocam tem que ser curado, cada um têm que buscar e constuir formas alternativas saudáveis de lidar com a vida. Ter em conta todas as áreas de um distúrbio alimentar é fundamental para a recuperação da/o doente... stress, sofrimento (passado e presente), aprender a lidar com as emoções, em paralelo com aprender alimentar-se de modo saudável. Aprender a não usar a comida como um mecanismo para enfrentar as questões que estão na raiz do comportamento anoréctico é essencial. Os amigos e familiares por vezes pensam..."se eu conseguir obrigá-la/o a comer ele/ela conseguirá resolver o problema". O apoio na alimentação é essencial, mas não suficiente. [Fonte:tradução adaptada de texto original (em inglês) aqui]. Da experiência que vivi tenho POUCAS certezas e MUITAS dúvidas. Das certezas: (1) o problema não estava no prato, estava na cabeça, na alma, no coração, ou onde quer que os meus sentires se localizassem (...)
Fotografia Irving Penn.

Nov 13, 2009

>> sair da casca e ...

" Sair da casca e, onde quer que se vá, falar com as outras pessoas. Olhá-las nos olhos e dizer-lhes aquilo em que se estiver a pensar. Além disso, ouvi-las, tentar entendê-las nos aspectos em que pensam e sentem de maneira diferente. No fundo, conversar, descobrir e oferecer-se. À antiga, sem internet, com cheiro." José Luis Peixoto, jornal i
foto flickr cc (aqui)

>> 10 Sinais de Aviso da Anorexia Nervosa


Os sinais de aviso da Anorexia Nervosa são vários e podem ser encontados em muitos dos sites indicados nos links/ligações (à direita). Na página da AFAAB encontra-se a lista abaixo com 10 sinais. Permitimo-nos mudar a ordem porque são apresentados e comentar brevemente a partir da nossa experiência pessoal.
1. "Não revelar sentimentos"
não revelar sentimentos ...não revelar sentimentos...não revelar sentimentos ...não revelar sentimentos...não revelar sentimentos
Talvez a raíz e o maior obstáculo à solução do meu problema. Porque o mal não estava na comida o problema estava no que sentia na alma, no coração, algures em mim. Um sofrimento que me destruia por dentro e não saía. Uma teia em que me ia enleando, que se ia transformando em armadura e que me isolava num mundo só meu e aparentemente protector.
2. "Extremo auto-controlo"
Para não me alimentar precisava de ter uma grande disciplina, método e controlo das minhas acções. Não comer é contra a natureza. Conseguir controlar a fome era uma forma de aplicar o auto-controlo. E esse auto-controlo também o aplicava noutros domínios como o estudo, o trabalho, o desporto. Mas esse meu controlo era também contraditório, pois eu estava muito frágil e não conseguia dominar as minhas emoções. Por isso o controlo era aparente.
3. "Tornar-se progressivamente mais crítico e menos tolerante com os outros"
Os outros, sempre os outros os grandes ausentes e omnipresentes quando estava doente. Não me tornei particularmente crítica até porque sempre o fora. Mantive o meu terreno de socialização habitual (fugindo da que envolvia comida). Não fiquei menos tolerante (nunca fui) apenas tinha menos paciência. Porque a fome nos tira a paciência, mesmo quando controlamos a fome como aconteceu comigo durante anos. A magreza suscitava comentários de elogio, sarcásticos, preocupados, etc. Lá fui lidando com todos, comentários e olhares. Dos outros pode também chegar, travestida sabe-se lá como a fuga que nos faz cair na realidade. Não há príncipes encantados nem príncipes valentes cavalgando em cavalos brancos. Mas há pessoas encantadoras e valentes. Algumas jovens com anorexia chamam-se de 'princesas' e a interpretação que é dada está relacionada com a recusa em crescer, passsar de menina a mulher.
4. "Significativa ou extrema perda de peso sem causa médica aparente"
Esse foi um sinal acompanhado pela perda do período menstrual. Foi este último o sinal de que a família, e primeiro a minha mãe se apercebeu. Foi um sinal que me preocupou pois pensei que nunca poderia ser mãe no futuro. Conheço casos em que a anorexia nervosa esteve na origem de infertilidade. E ao contrário do que dizem alguns livros que a anorectiva vê a mestruação (como a comida) como algo sujo eu estava consciente de que a mestruação me faria falta. Por isso a primeira médica que consultei, por inciativa própria, em segredo, foi uma ginecologista.Ou seja, eu sentia-me doente mas não percebia que o mal era psiquico.Escusado será dizer que a primeira coisa que a dita médica me receitou foi...um teste à gravidez que fiz. Inútil, porque as cegonhas não voam de Paris.
5. "Redução da quantidade de alimentos ingeridos"
Uma redução que em resultados de condições particulares da minha vivência de então eu conseguia ocultar ou justificar. Um controlo rigoroso e doentio pela balança- pesava rigorosamente tudo- a fruta depois de descascada e ficava aborrecida quando não conseguia pesar coisas que só em balança de ourives conseguiria, tais como um pau de canela, sumo de um gomo de limão, uma azeitona, etc. Uma tabela de de calorias publicada numa revista de moda e um caderninho onde apontava tudo.
6. "Desenvolvimento de comportamentos ritualizados à refeição, como, por exemplo, cortar a comida em bocadinhos muito pequenos e mastigar cada bocado em grande número de vezes."
Como comia muitas vezes sozinha não usava desses rituais, que no caso de comer acompanhada só serviriam para dar nas vistas.
7. "Não assumir a fome"
Tinha fome e muita, principalmente nos primeiros tempos. Depois fui-me habituando e a própria debilidade do corpo já não estimulava tanto a fome. Mas quando era preciso mentia dizendo que não tinha fome. E se era obrigada a comer compensava nas horas e dias seguintes...com mais jejum. Hoje sei que a bulimia preceder ou suceder à anorexia. Mas nunca fui bulímica.
8. " Só comer produtos alimentares magros e de baixo valor calórico"
O pouco que comia era muito controlado, mas o problema para a identificação deste sinal é que ele se confunde (para os familiares e amigos) com a procura de uma alimentação saudável. As festas eram um suplício na parte tocante à comida mas eram também um teste apara eu saber até onde conseguia controlar as tentações.
9. "Prática excessiva de exercício físico"
Sempre tinha praticado desporto, por isso esse sinal sentido como excessivo pela família nunca foi identificado. O que não sabiam é que levava horas (muitas horas) sem parar a dançar e aos pulos no meu quarto. O exercício físico pode hoje assumir muitas formas e também mais uma vez ser confundido com práticas saudáveis.
10. "Achar-se sempre muito gordo mesmo quando isso está longe de ser verdade"
No início sentia-me gorda, embora tivesse uma massa corporal normal, não era uma pessoa gorda segundo os parâmetros de então. Mas depois de meses de doença, quando me via ao espelho e nas fotografias, quando lia o mostrador da balança, com os ossos espetados (as costelas à vista como as imagens dos campos de concentração) percebia e sabia que estava magra. Só que achava que ainda não estava suficiente magra para parar a luta pela magreza. Não, não queria ser modelo nem as modelo (poucas e mais para o cheio nessa altura) eram minha referência. Vivaia todos os dias uma espécie de morte lenta, de suicídio homeopático.
Imagem flickr cc [Madasor]

Nov 6, 2009

>> Atendimento Familiares e Amigos tel Lisboa

Um espaço de atendimento aos familiares e amigos dos doentes com anorexia e bulimia nervosas.
Telefone 217 972 110 ou 914 929 928 (2ª feira a 5ª das 14h-17h)
informação recolhida na página da AFAAB

Nov 2, 2009

>> Imagens manipuladas

Uma deputada (Valérie Boyer) propôs no parlamento francês em Setembro uma legislação que obrigasse a indicar nas imagens manipuladas digitalmente: 'manipulada por um programa de tratamento de imagem'. A proposta gera polémica num país em que uma fotografia de férias de Sarkosy foi manipulada para o emagrecer.
A mesma deputada propôs em conjunto com outros cerca de 46 medidas de saúde pública com particular atenção para as mulheres. Entre elas diversas medidas de prevenção junto dos jovens de doenças relacionadas com comportamentos alimentares (no blogue da deputada, em francês, aqui).
A manipulação das fotografias sempre existiu. Há umas décadas, em Portugal, recordo que a concorrência entre fotógrafos profissionais era também efectuada a partir do chamado 'retoque' que por vezes usava cor e fazia maravilhas (procurem em fotografias antigas e encontrarão muitos produtos desses retoques mais ou menos conseguidos). Opiniões diversas em relação à proposta sobre a identificação de imagem manipuladas (em português) aqui.
Qual o interesse desta discussão? Alertar para o facto de certas imagem que servem de 'padrão' ou 'modelo' para quem tem doenças de comportamento alimentar são de facto meras criações...nalguns casos artísticas.
Em baixo um exemplo de transformação por maquilhagem clássica (40 segundos) e digital (35 segundos).

Oct 31, 2009

>> Cindy Crawford : contra a ditadura da magreza

Cindy Crawford declarou recentemente a propósito da magreza escessiva na moda "Em 2009 não me poderia ter tornado uma top model. Tenho um ar demasiado saudável para ser uma topmodel em 2009. Um corpo como o meu, com seios grandes e coxas normais não é o que a indústria [da moda]actualmente procura ” A magreza é uma ditadura da moda. Cindy, que tem agora 43 anos afirmou estar feliz com sua forma física e que se preocupa apenas com alguns efeitos do envelhecimento como as rugas.“Eu gosto de sentir os meus 40 anos porque estou em paz comigo mesma e conheço os meus pontos fortes, que vão para além do facto de ser bonita".

>> Qual o peso ideal para uma modelo ?

A notícia chama a atenção para a magreza enquanto ditadura da moda (ver opinião de Cindy Crawford) . Pena que não tenha feito perguntas também por exemplo a um profissional de saúde que desse alguma informação sobre o que pode ser o peso ideal...Ficam as imagem. Comentários?

Cindy Crawford declarou recentemente a propósito da magreza escessiva na moda "Em 2009 não me poderia ter tornado uma top model. Tenho um ar demasiado saudável para ser uma topmodel em 2009. Um corpo como o meu, com seios grandes e coxas normais não é o que a indústria [da moda]actualmente procura ” A magreza é uma ditadura da moda. Cindy, que tem agora 43 anos afirmou estar feliz com sua forma física e que se preocupa apenas com alguns efeitos do envelhecimento como as rugas.“Eu gosto de sentir os meus 40 anos porque estou em paz comigo mesma e conheço os meus pontos fortes, que vão para além do facto de ser bonita".

Crystal Renn, uma modelo que se debateu com a anorexia durante vários anos, decidiu passar a ser modelo de tamanhos acima do zero. Sente-se mais feliz e continua a ser modelo. “Quero ver todas as formas a vestir todos os tamanhos na passerelle” “O tamanho zero não pode ser a norma”No vídeo abaixo fala também do seu livro Hungry.


Oct 25, 2009

>> os 'outros' ( reais e virtuais)

Os outros. Quem são os outros? os amigos, os colegas, os irmãos, os pais, os companheiros, os professores, os médicos etc. Alguns outros podem ser muito importantes quer no desencadear da doença quer na recuperação. Uma frase aparentemente inocente sobre 'estás mais gorda' pode ser o gatilho. Outra dizendo que 'estás óptima assim mais magra' pode alimentar a doença. Outra dizendo ' estás bastante mais magra, estás com algum problema de saúde?' pode ajudar. Ou não. Para quem quer ajudar alguém que sofre de anorexia nervosa é difícil encontrar as palavras e acções certas. O momento e o local exactos. Porque quem está doente se debate com contradições múltiplas.

A magreza pode ser uma forma de ser melhor aceite socialmente (não serão todos os casos, cada caso é um caso como já escrevi ou " cada caso é um mundo" como li num blogue recentemente)... mas ao mesmo tempo a anorexia afasta o doente do convívio com os outros (e muito desse convívio se faz à volta da comida e bebida).
De um modo geral quem sofre de anorexia e bulimia procura isolar-se. E aqui entra o aspecto que pode ser muito perigoso do convívio virtual com outros com igual sofrimento. Ficar rodeado por outras pessoas (virtuais) com o mesmo problema (e o problema não está no prato) pode ajudar a reforçá-lo. Há pouco li um texto de alguém muito jovem que se propunha manter um comportamento de anorexia, estabelecendo uma meta de peso e pedia para lhe enviarem sms de incentivo.


Ao mesmo tempo que procura isolar-se muitos dos doentes sentem que estão a fazer sofrer aqueles (reais) de que mais gostam e que lhes são mais próximos. E por vezes decidem tratar-se porque percebem o sofrimento que geram sobre os outros que lhe são queridos. E esses outros, mesmo sofrendo, procuram por vezes aparentemente menosprezar a doença, resumir tudo a uma vontade de emagrecer ou uma tontisse juvenil, esperando que passe como uma constipação.
Foto flickr cc aqui

Oct 22, 2009

>> contra sites de apologia da anorexia ou pro-ana

Artigo publicado no semanário Sol no dia 18 de Setembro passado (aqui) [a notícia recebeu até hoje 10 comentários e 1662 visitas]. Um estudo académico de alguns desses sites pode ser encontrado aqui e está referido nas ligações. Se tiverem conhecimento de outros enviem que daremos divulgação (esqueciaana@gmail.com)
"Psiquiatras lançam apelo contra sites apologistas da anorexia"
Reino Unido
"O aumento de sites e páginas em redes sociais que defendem a magreza excessiva como modelo de beleza está a preocupar vários psiquiatras britânicos, que estão a apelar ao Governo do Reino Unido para proibirem este tipo de sites. O apelo coincide com o arranque da semana de moda de Londres, onde os organizadores permitiram o desfile de modelos ultra-magras, ao contrário do que já acontece em alguns países, avança a Reuters.
De acordo com investigadores do Royal College of Psychiatrists, há cada vez mais jovens britânicos que procuram sites para saberem dicas sobre como esconder a perda de peso excessiva. Citada pela agência noticiosa, a responsável pelo departamento de desordens alimentares da instituição, Ulrike Schmidt, acusa este tipo de páginas de «normalizarem a doença».
Dados divulgados pelo Royal College of Psychiatrists indicam que mais de 1.6 milhões de pessoas, só no Reino Unido, sofrem de desordens alimentares, na sua grande maioria são adolescentes do sexo feminino." (Sol, 18 set 2009)
Imagem: retirada de um site proana onde outras coisas se sugere como dicas úteis "nada comer durante 28 dias".

Oct 20, 2009

>> Anorexia nos Homens

Texto original em Something Fishy recolhido aqui.
Estima-se que 8 milhões de pessoas nos Estados Unidos sofrem de um distúrbio alimentar sendo 10% homens. Esta percentagem deve estar subavaliada, por causa da idéia errada de que esta doença atinge apenas as mulheres. É uma dificuldade adicional que enfrentam os doentes que pretendem tratar-se. Segundo Arnold Andersen na investigação publicada no livro [Os homens com transtornos alimentares], enquanto as mulheres que desenvolvem distúrbios alimentares se sentem gordas antes do início da doença, os homens geralmente têm peso médio. Além disso, os homens que são comedores compulsivos podem permanecer sem diagnóstico devido à maior permissividade da sociedade em relação à gordura nos homens. Associar a anorexia masculina à homosexualidade é também um erro frequente. Assim existe um conjunto de factores que agravam ainda mais os problemas dos rapazes e homens com anorexia ou bulimia. Isso gera sentimentos adicionais de vergonha quer em heterosexuais quer em homosexuais. São também raros ou inexistentes os centros de tratamento específicos para doentes do sexo masculino.
Os homens que participam em desportos orientados para baixo peso (jóqueis, corredores, etc.) têm um risco acrescido de desenvolver um transtorno alimentar como a anorexia ou a bulimia. A pressão para ter sucesso, ser o melhor, ganhar a todo o custo, combinadas com outras pressões (problemas familiares, abuso, etc) potencia o aparecimento dos distúrbios.
Por vezes, os homens que sofrem de um distúrbio alimentar também sofrerem de alcoolismo e / ou abuso de drogas. Isto pode ser devido à natureza viciante da doença psicológica combinada com alguma indulgência da sociedade em relação aos homens alcoolicos. Além disso, os homens que sofrem com anorexia e bulimia parecem ter mais ansiedade sexual. Também pode haver uma ligação entre o TDAH, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade nos homens e a Anorexia e Bulimia (relação ainda muito pouco estudada).
Para todos aqueles que sofrem, sejam homens ou mulheres, há várias doenças do foro psicológico que podem existir em simultâneo (depressão, ansiedade, stress, comportamento auto-lesão, abuso de substâncias, transtorno obsessivo-compulsivo, personalidade bipolar, etc.) A coisa mais importante, em termos globais, é que, independentemente de diferenças nos sintomas e sinais entre homens e mulheres, a maioria dos factores psicológicos subjacentes que levam a um transtorno alimentar são os mesmos para ambos.Baixa auto-estima, necessidade de ser aceite, depressão, ansiedade, incapacidade de lidar com as emoções, questões pessoais, etc.. Todos os perigos físicos e complicações associadas com ser o portador de um distúrbio alimentar são os mesmos. Acima de tudo, todas as pessoas com transtornos alimentares merecem receber atenção e encontrar a felicidade e o amor-próprio.

Imagem: exposição de Alberto Giacometti

Oct 18, 2009

>> SOS Voz Amiga

SOS VOZ AMIGA ** Diariamente das 16 às 24h
96 352 46 60
91 280 26 69
21 354 45 45
O que é? O Centro SOS-Voz Amiga é um serviço de ajuda pontual em situações agudas de sofrimento causadas pela Solidão, Ansiedade, Depressão e Risco de Suicídio.
Se precisa de:
• Falar, em anonimato, com uma pessoa desconhecida;
• Relatar situações de sofrimento pessoal, sem constrangimentos de ordem moral, sexual, religiosa ou política;
• Conversar com alguém que se interesse pelos seus problemas e angústias;
• Encontrar pessoas que aceitem falar da ideia de morte.
Ligue-nos. Nós ligamos.

Imagem Flickr-CC: daccasaa

Oct 17, 2009

>> os ossos não são limite para ...o Photoshop!

Nas imagens publicadas em catálogos da marca de roupa e perfumes Ralph Lauren o programa de tratamento de imagem Photoshop dá uma ajuda no emagrecimento contra natura das modelos. Os ossos já não são o limite! Apenas uma má qualidade do 'artista de Photoshop' ou algo mais? ( a empresa, reincidente, já pediu desculpas...)
Nota: Neste blogue evitamos disponibilizar fotografias de pessoas que sofrem de distúrbios alimentares. Seguimos uma recomendação da beat associação do Reino Unido que luta contra a anorexia e a bulimia. Segundo nota à imprensa pede essa associação para os meios de comunicação evitarem publicar fotografias a ilustrar pessoas com anorexia: "Em alguns casos, ver a própria imagem pode perturbar ainda mais o doente e atrasar a recuperação" . Esta afirmação parece contrariar as vantagens da terapia pela fotografia. Mas é apenas mais uma das muitas interrogações e falta de consensos associdos à doença.


Oct 16, 2009

>> Guarda: Tertúlia "Distúrbios Alimentares Causas e Consequências"


Temos referido como é ainda escassa a informação sobre as doenças associadas ao comportamento alimentar. O mapa de consultas em Portugal é ainda muito incompleto. [nota: a autora deste blogue gostaria de receber informação sobre se existem na Guarda consultas específicas)
Está de parabéns o Teatro Municipal da Guarda pela iniciativa.
"Distúrbios alimentares: causas e consequências" foi o tema em debate ontem, 14 de Outubro, no Café Concerto, numa iniciativa do TMG e da Câmara Municipal da Guarda. [...] painel de oradores: Dulce Quadrado (médica de saúde familiar), Raquel Arteiro (nutricionista), Victor Afonso (Serviço Educativo do TMG e moderador) e Sílvia Castro (psiquiatra). Assistiram à tertúlia cerca de 30 pessoas."
Fotografia: Irving Penn (1917-2009)

Oct 14, 2009

>> Mulheres reais vs modelos ideais



Notícia no jornal Público 14 Outubro 2009 de Joana Amaral Cardoso
Refere os casos Vogue, Brigitte, Glamour relatados neste blogue.
Público - Mulheres reaisivs/imodelos ideais