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Aug 31, 2010

...[testemunho de recuperação] "o percurso é longo, duro e cansativo mas compensa!"

Transcrevo um testemunho com permissão da autora a quem agradeço a partilha.  Recomendo vivamente a leitura. Termina assim: "...ANOREXIA E A BULIMIA MATAM!
Muita força o percurso é longo, duro e cansativo mas compensa! "

"O meu nome e I, quando soube do livro publicado pela mãe Ana Granja quis comunicar lhe o meu testemunho por solidariedade, esperança e total compreensao.

Abreviando a minha história, eu era atleta federada e praticava ballet, sempre fui baixinha ao qual me orgulho pois chego a todo o lado e posso usar sempre saltos altos, mas a puberdade não perdoa, engordei bastante, e aos 14 anos o que seria uma dieta normal tornou se a minha destruição. Sofri de todos os males que já conhecem, anorexia, bulimia suas consequências, e os meus pais no desespero de me travarem levaram me aos melhores médicos deste país mas sem efeito, pois conseguia dissuadir tudo e todos e manipular mais uns quantos. Perdi 25 kg em 2 meses, não tinha a menstruçao, estava fraca, tomava medicação às escondidas e vomitava a toda a hora.

Partiram se muitos pratos naquela casa fugi do hospital, tive 3 psicólogas, 2 endocrinologistas, 3 nutricionistas, e médicos de clinica geral conto pelos dedos dos pés, isto para dizer que fui uma paciente dificil. e tinha fases e sabia, que ia morrer.

Até que um dia no limiar das minhas forças, tive ums sonho muito estranho com alguém que me e muito querido, o meu avô. Vi a minha vida toda a correr como um filme, disse me que não era altura de partir e que iria seguir a profissao da familia.

No dia a seguir inverti todo o processo e comecei a comer enormidades de comida, e também com ela vomitava imenso pelo sentimento de culpa. Mas o que é certo e que junto a isso e a um amigo que me visitava todas as noites para falar de coisas banais, foi agarrando-me à vida e tentando perceber o porque da mutilaçao constante. Eis que no primeiro ano de faculdade me surge a resposta, o problema não sou EU, nem a quantidade de comida que como ou deixo de comer, o problema é o CONROLE que queria fazer de tudo e comecei pelo meu corpo.

Em relaçao aos meus amigos, não perceberam durante algum tempo, só quando comecei a faltar as aulas e o que me disseram foi " nao acredito que uma pessoa como tu, tao forte estejas com essa coisa!" e fez clique. Aos que contei mais tarde toda a minha história respeitam me imenso NÃO temam represalias!

A relação com os meus pais foi muito complicada, acusei a minha mãe de muita coisa pois ca em casa tudo tinha a mania das dietas... a minha mãe ajudou me no processo de emagrecimento em casa, quando nao sabia que eu estava doente.hoje somos muito unidos e saudáveis!

A minha irmã mais nova e a minha melhor a amiga, e um grande motivo para não por termo ao meu sofrimento em épocas de crise.

Hoje tenho 20 anos, o meu avô tinha razao e estou a formar me para ser farmacêutica.

Como de tudo, um pouco, esse é o segredo.Mas tenho sequelas, uma gastrite crónica que nao me larga e algumas outras dores de cabeça. Continuo a ter manias! Os pais que nao se preocupem, antes manias que manhas. E agradeço a Deus por não ter morrido naquele dia, ainda quero ver o sporting ser campeão outra vez!

Deixo um último conselho para os pais e amigos que podera parecer estranho, se os vossos filhos/as, amigos/as estiverem quiserem vomitar, quiserem esconder comida, deixem. Adquiram a sua confiança, mostrem que os amam incondicionalmente que até os deixam fazer asneiras. porque o amor e a maior arma do mundo e essa foi a maior luta que travei a teimosia e a rendiçao.

Para os meus colegas de CF que ainda nao aprenderam a ANOREXIA E A BULIMIA MATA!

Muita força o percurso e longo, duro e cansativo mas compensa! "

foto flickr cc (aqui)

Aug 24, 2010

..."Eu era uma mãe em luta; agora sou uma mãe em luto..." (Ana Granja)



Acima video "Fragmentos de um percurso interrompido" (Ana Granja). O livro de Ana Granja, "Sem ti, Inês" expõe os sentimentos de uma mãe em luta contra a doença da filha (anorexia nervosa) e em luto (após o falecimento com 16 anos). É um livro corajoso e bem escrito. Gostaria muito que a minha mãe o tivesse lido quando eu estive doente. Teria certamento ajudado a um melhor entendimento da complexidade da doença. Porque não basta a informação científica.
Existem "falsas ideias e preconceitos que a maior parte das pessoas alimenta acerca desses males. Temos então de aprender a lidar com a ignorância e a incompreensão daqueles para quem a anorexia é um capricho, uma doença da moda que só atinge os fracos...Um alerta, que é também um testemunho carregado de emoção: o sofrimento de um adolescente anoréctico é real, profundo e genuíno!!! Sendo a fuga à dor e ao sofrimento uma motivação básica no ser humano, a anorexia não pode resultar de uma escolha voluntária, racional e consciente. E daí [...]" Ana Granja in "Sem ti, Inês", p.12.
"Nos primeiros tempos da doença, movida mais pela emoção do que pela razão, fiz tudo errado! Em conversa com outras mães percebi que é comum que assim seja. Ver a minha filha comer menos a cada dia que passava, perder peso a um ritmo assustador, apelou ao mais profundo instinto maternal: necessidade de (super) proteger, vigiar, controlar, pressionar, exigir. Assim, [...] Ana Granja in "Sem ti, Inês", p. 17
"As consequências da subnutrição notam-se na mente e no corpo a cada dia que passa. Para além dos efeitos só perceptíveis através de exames especializados, é notório que se tornam mais lentos e apáticos, têm dificuldade em adormecer e acordam muito cedo, a pele torna-se seca e enrugada, a temperatura do corpo baixa considerávelmente, o que os torna mais sensíveis ao frio, e o cabelo cai a um ritmo assustador. Só eu sei o que me custava secar o cabelo à minha filha e perceber que o seu cabelo forte e bonito era agora uma mera recordação." Ana Granja, in "Sem ti, Inês", p.23
"Infelizmente, perdi a luta contra uma doença devastadora que ameaça tornar-se uma epidemia do século. Quando me lembro de que a anorexia afecta cerca de um por cento dos jovens e que, desses, morrem cerca de 20 por cento (na perspectiva mais pessimista), não posso deixar de pensar que a minha filha foi sorteada duplamente numa lotaria fatal" Ana Granja in "Sem ti, Inês"
"Se algum dia a minha mãe soubesse o quanto sofro ao vê-la assim, sabendo que é por minha causa...Não gosto de ver as pessoas que mais amo sofrerem por mim. Gostava de poder dizer: não se preocupem, eu estou bem, mas eu sei que não estou. É tão difícil não me sentir capaz de cuidar de mim, sabendo que estou doente!" Inês Granja da Silva (1992-2008) , in "Sem ti, Inês" de Ana Granja.

Aug 23, 2010

..."Sem Ti, Inês" (livro de Ana Granja)

Tinhamos chamado a atenção neste blogue em Novembro de 2009 para o testemunho de Ana Granja (aqui) publicado originalmente na página da AFAAB. Ficámos a saber h hoje da publicação do livro abaixo referido que iremos ler.
Notícia publicada no diário digital (aqui): O lançamento do livro «Sem ti, Inês», de Ana Granja, editado pela Caderno, realizou-se no passado dia 18 de Março, nos Serões da Bonjóia, Porto.
«Sem ti, Inês», de Ana Granja

«Da Inês restam hoje as memórias, que a passagem dos dias cruelmente apaga e transforma. Restam também imagens, e é nelas que fixamos o olhar: um rosto fotografado em contraluz, a preto e branco, um Sol desmaiado a espreitar ao fundo.
A Inês da imagem é uma adolescente, sorriso meigo, olhos tristes. Não chegará a completar 16 anos. Em seis meses apenas – desde o dia em que lhe diagnosticam a anorexia até ao dia da sua morte – desaparece aquele sorriso. No seu lugar fica o vazio, uma família em luto, um pai, uma irmã e a mãe, Ana, a tentar reconstruir o puzzle do resto da sua vida, um puzzle onde agora faltam peças, onde há peças novas que teimam em não encaixar.
«Sem ti, Inês» é o diário de uma mãe em luto. É a narrativa real de uma mãe a agarrar-se à escrita, à Filosofia, a poemas e canções, a tudo o que foi escrito e dito e feito, a qualquer coisa que a ajude a enfrentar a dor, a sobreviver à mágoa de ser, hoje e sempre, Mãe de uma filha que já morreu»

Aug 19, 2010

..."Brave Girl Eating" (livro sobre a luta de uma família com/contra a anorexia)


O livro Brave Girl Eating, sobre a luta de uma família contra a anorexia vai ser publicado no próximo dia 24 nos Estados Unidos. Da página da autora Harriet Brown transcrevo a breve apresentação:

"Esta é a história de como a minha filha mais velha Kitty se tornou anoréctica e quase morreu, e como o meu marido, a minha filha mais nova e eu a ajudámos na cura.  Esta história não é sobre uma família disfuncional, o abuso sexual ou uma pobre menina rica sedenta de atenção. Não é uma estória para alertar para os modelos esqueléticos do mundo da moda e para os media.  É uma história sobre uma adolescente comum que caiu no buraco da anorexia - por acidente, como sempre acontece - e sobre a sua escalada para a saúde e a esperança, escalada lenta, penosa, extraordinariamente corajosa, momento a momento, passo a passo, um pouco de cada vez"  (Harriet Brown )

O programa Good Morning America desmarcou uma entrevista que já tinha agendada com a autora depois desta se recusar a que fossem exibidas fotografias da filha quando doente. Uma discussão sobre este tipo de comportamento por parte dos meios de comunicação norte americanos pode ser lida aqui. A anorexia é uma doença mental, os meios de comunicação em geral exploram as imagens chocantes da magreza. Mas a magreza é apenas um sintoma.
Alguns comentários ao livro Brave Girl Eating na página da Amazon (aqui)

Aug 17, 2010

...Sucesso na luta contra a anorexia no masculino (testemunho de jovem português)



Neste blogue esqueciaana algumas vezes temos referido a anorexia no masculino (alguns posts aqui) Reproduzo abaixo o testemunho de um jovem português de 16 anos e com autorização do autor [ "Estou contente por entrar em contacto consigo!Sim , dou-lhe autorização para colocar o meu testemunho no seu blog"] um testemunho deixado originalmente há dias na página da AFAAB. Parabéns Daniel pelos resultados na luta contra a doença e obrigada pelo testemunho.

"Olá caros senhores e caras senhoras.
O meu nome é Daniel, tenho 16 anos, fui diagnosticado como doente de anorexia nervosa e vou-vos contar o meu testemunho.
Tudo começou quando entrei na adolescência, na minha nova escola (10º 11º 12º) e a qual a frequento nos presentes dias, enfim...foi tudo muito repentino para mim.
Esta doença apareceu na pior fase da minha vida, como falei há pouco, a adolescência, onde o nosso corpo muda, o tom de voz muda, e o nosso psicológico também muda, pensamos nós que nós é que sabemos e que o que os outros dizem é para nosso mal...enfim, ainda passo por isso, mas vai passar ;) .
Eu já fui gordinho quando era pequenino, os meus pais deixava-me comer de tudo, era bolas de berlim á sobremesa, bolos de chocolate, bolicao, chipicaos, batatas fritas, enfim...nunca me negavam nada, sabendo eles que eu era gordinho.
Fiquei com um trauma desde ai, via-me ao espelho e via-me gordo, e na realidade as pessoas dizia-me que era magro, não queria voltar a ter a mesma imagem de quando era pequenino.
Foi então que no ano passado, desmaiei, isto derivado à falta de apetite, sim!! falta de apetite, o meu psíquico alimentou este trauma e deixei-me levar ...até que quando desmaiei, examinara-me e pesaram-me, dizendo que possuia 42 quilos.
Foi um grande choque para mim e para os meus familiares e amigos!!!
Começei a ser tratado no Hospital de Sao João, pelo Dr. Roma Torres, á qual me ajudou, nem fez um ano, os médicos e nutricionistas dizem que o meu caso, é um caso de sucesso, agora que estou melhor resta-me procurar manter o peso, e continuar o plano alimentar que me conduziram até aqui.
Lembrem-se , e isto é verdade...sem saúde nada se faz, e eu sou testemunho disso.
Se alguma pessoa quiser saber mais domeu testemunho, publique algo ou contacte por mail: d.f.p.s.g46@hotmail.com
Estou aqui para dar o meu testemunho e ajuda a pais, amigos e familiares de pessoas com anorexia e bulimia." (Daniel)

Aug 15, 2010

..."excelente desempenho" (apesar de muito doente)


Transcrevo do blogue ED Bites um extracto de um post recente baseado na experiência desta investigadora que é também uma doente em recuperação. Aborda a questão da 'funcionalidade' dos doentes com anorexia, ou seja, apesar de estarem muito doentes, alguns desenvolvem diversas actividades (académicas ou profissionais) com níveis de performance excelentes, ou seja, aparentemente está 'tudo normal' uma aparência bem diversa da que frequentemente se associa a esta e outra doenças mentais.  Nas palavras de Carrie (tradução livre do inglês da autora de esqueciaana)

«Já me referi a mim própria como 'uma anorectica com elevado desempenho' porque, de facto apesar da minha doença do comportamento alimentar eu tive a maior parte das vezes  um desempenho muito bom. Terminei uma licenciatura, completei mestrados, fui de facto geralmente 'funcional'. Com excepção de de um tratamento de sete meses e várias breves e graves hospitalizações, nos últimos oito anos vivi como uma pessoa "normal".
Estão a ver? afinal o meu distúrbio alimentar não é assim tão grave!
O problema não foi apenas que impus essa ideia falsa aos meus amigos, família e terapeuta ( Estou bem! Não estou doente!) , eu também comecei a acreditar na minha própria mentira. E, se não estava doente, porque teria que me preocupar em melhorar?  Tinha um emprego a tempo inteiro, estava a estudar, estava bem,  RAIOS!
O problema é que 'o bom desempenho' é um pouco um mito. O nosso desempenho nem sempre é uma medida da severidade da doença, por vezes é a medida da forma como se esconde como as coisas estão realmente mal. O meu coração estava afectado, a minha digestão era inexistente, o meu corpo estava fraco, e sim eu continuava a manter a minha média de A [nota máxima]no college.  Vários professores não perceberam porque abandonei os estudos 'estando a ir tão bem!'
Muitas vezes, quando o distúrbio alimentar, a ansiedade e a depressão se tornavam visíveis, não era porque eu tinha piorado. Pelo contrário, as coisas começavam a apresentar-se piores porque perdia a minha capacidade de compensar/encobrir a minha doença.  Construi cuidadosamente a minha vida em torno da minha desordem alimentar de forma a poder protestar com um olhar inocente e dizer que estava tudo bem quando me perguntavem. Sim, eu não tinha vida para além do meu trabalho, do ginásio e dos contadores de calorias, mas eu ia trabalhar todos os dias. Ninguém sabia o meu pequeno e ruim segredo que fechei a sete chaves algures, ninguém sabia que eu caminhava perigosamente para a morte"
(ler o texto original aqui, blogue ED-Bites)
Fotografia flickr cc aqui

Jul 23, 2010

..."a minha menina vai vencer esta terrível luta"


A anorexia faz sofrer muito todos os que convivem com o doente. Os pais sofrem pela dor dos filhos e pela relativa impotência numa luta injusta em que o doente muitas vezes parece estar a favor da doença e não luta contra ela. O testemunho abaixo transcrito é de uma mãe que tem neste momento a filha internada em luta contra a doença. Para ambas a nossa maior solidariedade.  


"A luta

enviado para AFAAB em 2010-07-12 por Mãe (*)


Apesar de por várias vezes já me terem falado da Vossa Associação só há bem pouco tempo tive coragem para consultar o site.
Fiquei deveras impressionada com o testemunho intitulado "PARTILHA DE DOR" (**). Aconselhava todos os familiares e amigos de pessoas que sofrem de doenças do comportamento alimentar a ler e divulgar se possível. Nem que seja para evitar o sofrimento de uma só familia valerá a pena, pois só quem têm a infelicidade de atravessar por este terrível deserto têm consciência do abismo em que mergulham as nossas vidas quando nos deparámos com este mal.
A minha filha já sofre de anorexia e bulimia há mais de 4 Anos, tenho lido muito, pesquisado imenso, mas nunca até hoje tinha encontrado um testemunho que descrevesse tão minuciosamente e intensamente o que pode representar o sofrimento de um(a) adolescente anoréctico(a), tal como o de uma mãe que acompanha com desepero esta terrível luta.
Identifico-me completamente com as palavras da mãe da Inês, excepto na última meia página, pois eu ainda tenho a sorte de ter a minha filha com vida. Confesso que sou assaltada na maior parte das vezes por uma terrível angústia, desconfiança e medo, mas tenho que continuar a acreditar que a minha menina vai vencer esta terrível luta contra essa intrusa que é a anorexia.
Neste momento está internada e quero ter fé, provavelmente estou a viver um dos piores momentos da doença: o afastamento. Essas são as regras do internamento, clausura total, sem visitas, telefonemas e qualquer contacto com o mundo exterior, mas se é para ela curar essa maldita doença valerá a pena. O pior é quando sou assaltada pelas outras hipóteses, que não se vai recuperar e que pode morrer. Pensar nisso impede-nos deveras de viver, ou melhor sobreviver, porque como diz o testemunho já entes referido quando o diagnóstico é anorexia existe uma vida "antes" e outra "depois".
Tenho receio de não voltar a ter a minha menina de volta, tenho medo por ela e por mim também, pois sem ela não sei como viver.
Leiam e divulguem por favor, demora 10 minutos e pode salvar familias desta trágica maldição que é a anorexia.
A todas as mães que estão a passar por fases tão dificeis como a que eu estou a viver, desejo toda a força e coragem, porque é deveras muito dificil para quem ama as suas filhas do mais profundo das suas entranhas conseguir ultrapassar de uma forma completamente ilesa esta terrível dor.
Muito obrigada, e espero do mais profundo do meu ser poder escrever aqui uma mensagem de esperança o dia que a minha filha esteja recuperada. "


(*) com permissão da autora "Não há qualquer problema para divulgar o meu post, pois sou da opinião que mais informação seja transmitida sobre esta maldita doença, mais casos se poderão evitar e portanto podemos eventualmente ajudar nem que seja uma única familia a não atravessar este inferno que é a ANOREXIA.Aguardo desesperadamente os resultados do internamento da minha filha e espero que um dia todas "nós" juntas possamos fazer algo para ajudar o próximo."

(**) A autora desse testemunho (Ana Granja) publicou um livro (Sem ti Inês) a que fazemos referência aqui e aqui.

Jul 1, 2010

..."destruiu-me a mim e à minha família"


Toda a notícia (janeiro 2010) pode ser lida em inglês aqui.
Título: "Durante anos Abby Baker não comeu para ficar magra. Os que amavam observaram como ela lutou contra os seus demónios.
Abby Baker, estudante inglesa,  está recuperada. Ela, pais, irmã e amiga foram entrevistados:

Abby Baker (18 anos) relata o seu processo de doença:
" [Quando estava anoréctica] tinha alcançado os meus objectivos- estava terrivelmente magra. Mas estava também desesperadamente infeliz." (+ aqui)

Mãe de Abby (47 anos) relata a difícil processo depois do diagnóstico:
" A mais pequena coisa desencadeava uma reacção agressiva. Ela atingia-me, gritava-me, puxava-me o cabelo. Mas eu sabia que a doença é que estava a provocar aquele comportamento. A minha Abby estava algures ali".

Uma amiga de Abby (17 anos):
"Eu queria dizer aos pais dos meus receios, mas tive medo que ela perdesse a confiança que tinha em mim e não queria deixá-la sozinha sem ninguém com quem desabafar"

Irmã de Abby (13 anos):
" Estou orgulhosa da Abby estar a recuperar mas ainda me sinto muito protectora em relação a ela. Posso ser a irmã mais nova, mas serei sempre a que olha por ela"  

Pai de Abby (48 anos):
" Ainda me sinto culpado de não ter visto os sinais. Hoje em dia todas as adolescentes se preocupam com o peso- não pensei que com a Abby fosse diferente" . 


Mary George, porta voz de Beat, Eating Disorders Association
"Para as 1,6 milhões de pessoas afectadas pelos distúrbios do comportamento alimentar no Reino Unido, existe ainda um maior número de famílias e de amigos que são afectados por essa doença com eles."

Jun 30, 2010

...fazer um plano de prevenção de recaídas (forças e fraquezas)


Transcrevo abaixo o último post de ED Bites [tradução livre de esqueciaana] . O texto original em inglês aqui. Um exercício de identificação de fraquezas e forças e um plano de ataque das fraquesas para antecipar recaídas...

“ Estou a iniciar uma série [de posts] sobre prevenção de recaídas, focando o essencial [ em inglês back to the very basics]. Um dos principais aspectos da prevenção da recaída é antecipar algumas das dificuldades que possa vir a encontrar e criar um plano para lidar com elas para que elas não atrapalhem demasiado. Penso que há um aspecto do planeamento de prevenção da recaída, que não tem merecido muita atenção: avaliação dos pontos fortes. Em que te podes apoiar quando as coisas ficam complicadas e a recuperação fica mais difícil?
Em conjunto forças e fraquezas fornecem o enquadramento a ter em conta no plano de prevenção da recaída.
Aqui está a minha lista:

Forças
bom sistema de apoio
boa equipa de tratamento
boas perpectivas (optimismo)
motivação para me sentir/permanecer melhor
capacidade de usar uma vasta gama de capacidades

Fraquezas
dismorfia corporal (imagem errada do corpo)
solidão
ansiedade
perfeccionismo
passar do pensamento á acção
lidar com a mudança

Depois de ter feito estas listas, peguei em cada uma das dificuldades e fiz uma lista específica de como lidar com os problemas sem ‘usar’ o transtorno alimentar [como ‘resposta’]. Vou partilhar convosco a lista que fiz para lidar com a imagem errada do corpo (dismorfia corporal). Ou seja, passo a ter um plano de resposta quando tiver que lidar com um ataque de “estou uma baleia monstruosa”!

Plano de ataque à dismorfia corporal
-  focar-me no que o meu corpo pode fazer em vez de me concentrar em como é o aspecto do meu corpo
-  participar em actividades desportivas ou dança em vez de realizar exercício sozinha
-  repetir para mim própria: “ O meu corpo é saudável e está bem com este peso.
-  continuar o trabalho de Cognitive behavioral therapy (CBT) para resolver a dismorfia corporal
-  "Os objectos ao espelho são menores do que parecem"
-  Partilhar e discutir meus sentimentos sobre a dismorfia corporal e que mais me está a acontecer
aceitar o facto de que ainda tenho dismorfia corporal e lembra a mim própria: Perder peso não vai resolver nada. A ED (eating desorder = doença do comportamento alimentar) é uma solução de curto prazo para um problema de longo prazo .

Esta lista não está  completa. Mas a questão da dismorfia corporal é muito importante para mim e a lista é um começo."
Carrie

Fonte:ed bites blogue aqui.

Jun 17, 2010

..." ex anoretica (crónica) feliz! " (testemunho)

Publicado originalmente (aqui, página AFAAB), transcrevo integralmente este testemunho de

ex anoretica (cronica) feliz!
2010-06-11, maria

"Ola. sou uma entre tantas que pensou durante anos que o sua unica Amiga era a Anorexia e o único destino co-habitar com ela o resto da vida.
Até que passados mais de 20 anos de AB (anorexia bulimia), que passaram 1º pela acomodação, depois pela luta, mais tarde pela submissão total à doença e que é a pior fase de todas.. em que nos rendemos por completo às ordens da doença, em que é ela que dita todas as regras de como sermos felizes e só o somos com um corpo magro, cada vez mais magro... só que ao mesmo tempo vem o cansaço, o profundo cansaço de tudo: de nós mesmas, da doença, os medos, as obsessoes cada vez maiores..o fim da linha aproxima-se com sequelas fisicas enormes (hemorragias de isofago, descalcificaçao óssea), isolamento social, afastamento de quem nos ama.. e a classe médica a não acreditar na nossa recuperação.. excepto uma.. a Drª Dulce Bouça... que acreditou em mim qdo eu ja não acreditava, que desde o inicio sempre me disse nao existirem casos perdidos.. e assim foi devagarinho reerguendo o meu mundo, a minha vontade..convençendo-me de que era possivel ser MAGRA e SAUDAVEL (pq ela sabe que é fundamental para nós sabermos que nao vamos engrodar, ela como profunda conhecedora da nossa doença conhece mt bem os nossos medos), controlar o nosso corpo de forma saudavel... e até que hoje, após um internamento feito há 4 anos, posso dizer que estou VIVA e feliz, liberta das grades da prisão que me mantinha tão longe e ao mesmo tempo tão perto do vosso mundo..
Basta parar com o ritual do vómito, para que a Vida volte para nós de novo.. é ao mesmo tempo tão fácil e tão dificil.. o meu conselho às meninas que estão doentes é que a Vida é bonita demais e está sempre aqui à nossa espera.. nunca percam as esperanças e acreditem que podem ser magras e saudáveis.. os médicos sabem mt bem o que fazem qdo nos reeducam a comer..
Muito tinha para dizer e já tenho dito (inclusive m testemuhno está na revista do ndca) na net.. mas fico-me por aqui.

bjs a todos que sofrem desta doença e um B Haja enorme à m gde médica e amiga Drª Dulce Bouça e à equipa do HSM: DRª Jennifer, Drª Silvia, Drª Filomena, Drª Lara, enfermeiros maravilhosos.. todos os que me deram a mão na altura em que deixei a mão da doença e caminhei rumo à vida, todos os que me ajudaram a subsituir as regras de destruiçao e desnutrição da doença pelas regras da saúde e da Vida e da Felicidade!
obs: desculpem qq erro de escrita, mas estou com um pouco de pressa de momento."

Foto flickr cc (aqui) [batalha de almofadas em Toronto 2008]

Jun 16, 2010

...Anorexia e Bulimia: tratamento (in) voluntário III (Testemunho de uma mãe)

Transcrevo mais comentários recebidos. O seguinte de uma mãe, julgo que poderá ser subscrito por muitas mães e outros familiares.

Anónimo disse...

"Sou mãe de uma jovem com 16 anos que está com anorexia nervosa. Reconheço os sintomas, reconheço o perfil, encontro muita informação sobre a própria doença mas sinto-me impotente pois não sei como agir e sobre isso ainda não encontrei "receitas"... Já a levei a consultas de distúrbios alimentares mas detestou de tal forma o psiquiatra que se recusa a acompanhar-me a nova consulta. O que fazer agora? Não a consigo meter no carro à força! Sinto-me perdida... "



Leo Curcino disse...

e a discussão não pode parar!


Jun 9, 2010

...Anorexia e Bulimia : tratamento (in) voluntário ?- II [ testemunhos ]

O post anterior (aqui) recebeu até agora três comentários que muito agradeço e abaixo reproduzo:

Anónima disse...

« Sem dizer ao psiquiatra (especializado em dca) ou mesmo dizendo o contrário, baralhando-o, a Anorexia deixava-me alguns momento de lucidez, totalmente vividos em silêncio. Um IMC de 12,9, vomitos constantes, jejuns, muito exercício... A lucidez de que falo era esta frase que me ficava na cabeça: "dr interne-me, obrigue-me a ir, não me dê escolha porque eu não posso escolher tratar-me dessa maneira". Nunca disse a frase, mas ainda hoje ela cá está...e nunca a vou conseguir dizer, e talvez por isso nunca me cure.Porquê? Porque não iria pela minha "vontade", mas nao iria contrariada...estranho? sim, mas é demasiado pesado pedir a alguém que quase morreu de magreza para decidir alimentar-se e aumentar o peso... Quantas de nós não se querem curar, mas cá dentro há um "eu quero curar-me mas não quero aumentar o peso" embora saibamos, racionalmente, que não há uma coisa sem a outra...Não sei o que me vai acontecer...mas há dias emque só quero que o corpo me assuste, me internem, e me deixem lá ficar até ser capaz de tomar conta de mim...um testemunho sincero»

Dark AM disse...

« Fui ao blog da psicóloga e li sobre o assunto. Há uma coisa que é uma grande verdade e que custa muito para quem está doente ou já foi doente: atirar-nos à cara que nós é que escolhemos ter a doença. Não pensam, se fosse uma escolha não era considerado uma doença. O que custa é quando são os próprios pais a dizer isso. »
foreveryoung disse...

tenho um post novo QUERIDA ESQUECIAANA... =)

Fotografia de Laura Pannack (aqui a galeria)

Apr 27, 2010

...video Testemunho de Melissa ( Finding Melissa)



Sessão realizada no Museum of London em que uma das participantes foi a Autora do blogue Finding Melissa , Melissa Wolfe.

Apr 23, 2010

...bulimia fatal

Todos os dias em todo o Mundo a anorexia e a bulimia matam. Alguns casos, por razões várias, recebem dos meios de comunicação social maior divulgação. Desejamos que essa divulgação sirva para aumentar o conhecimento dos sintomas, das alternativas, das consequências infernais, das vias de recuperação (SIM é possível recuperar de vez!). Ontem o New York Times (NYT) referia o caso de uma jovem de 19 anos de nome Melissa Avrin que faleceu devido à bulimia (aqui). (despropositadamente na secção Fashion/Moda) Desde ontem o artigo já recebeu mais de 120 comentários de leitores. O artigo do NYT inclui fotografias da jovem falecida e um pequeno video (5 min) onde são apresentados testemunhos de amigos e familiares assim como de especialistas e doentes recuperados. A mãe está a realizar um filme para alertar para o problema (a razão aqui). Escreveu a Melissa "Someday:I’ll eat breakfast/I’ll keep a job for more than 3 weeks/I’ll have a boyfriend for more than 10 days/I’ll love someone/I’ll travel wherever I want/I’ll make my family proud/I’ll make a movie that changes lives." Estas poucas linhas exemplificam, como a raiz do mal está bem longe da comida. Mas recuperação passa por ela. Que esta morte tão prematura, que este fim abrupto dos sonhos sirva de AVISO.

Apr 11, 2010

... dançar

No programa da SIC "Achas que sabes dançar?" uma das concorrentes, I.A., referiu na sua breve apresentação que tinha frequentado aulas de dança clássica desde muito pequena, mais tarde entrado no Conservatório para estudar Dança mas desistira por motivos de saúde. "Tive anorexia nervosa" , era magra mas não estava satisfeita queria ser ainda mais magra (cito de memória). Actualmente continua a dançar. Vi o desempenho dela na primeira apresentação (passou à fase seguinte) e dou-lhe os parabéns! Felicito-a também pela forma como referiu a doença . Olhando para ela percebeu-se (eu assim entendi) que essa referência era também uma mensagem para quem se quer curar. Mesmo que se abrace uma profissão em que o controlo do peso é necessário e rigorosamente disciplinado. É um exemplo como se pode manter e concretizar um sonho (da dança neste caso) sem prejudicar a saúde.
Foto flickr cc (
aqui)

Mar 30, 2010

...Anorexia , tratamento, peso (IMC)

Recebi um comentário -testemunho que abaixo transcrevo como post (tendo retirado alguma informação por razões de manutenção de anonimato). Reformulei o post inicialmente juntando os comentários de Vanessa Marsden que muito agradeço e juntando alguns números conforme por ela sugerido.No esqueciaana já disponibilizámos alguma informação obtida de fontes fiáveis sobre os critérios (actualmente em discussão) associados ao diagnóstico da anorexia nervosa, por exemplo (aqui), (aqui, blogue Psiquiatria e Toxicodependência), (aqui) , (aqui) ou (aqui).
Testemunho
"tive consulta com o DrZ. Vim de lá tristíssima. A razão é contraditória e peço-te, por favor, para não me julgares. Eu já estou nos [..Kg]. Ora, com este peso o meu IMC [Índice de Massa Corporal] é de [..] e sabes o que ele disse? que eu não era anorética porque para o ser o IMC teria de estar abaixo dos 17. Fiquei pasmada. Garantiu me que não era anorética e marcou-me uma consulta [...] porque diz que independetemente de não o ser devo ganhar mais [..kg]. Ele não deve saber o que fez mesmo. É QUE VOU CHEGAR LÁ COM A PORRA DO IMC NOS 16 PARA ELE, JGMHNVFDHJEBEGV desculpa nem sei como escrever sobre isto..mas terei eu de ficar feliz por um médico especializado no tratamento de anorexia dizer que só porque o meu IMC já não é mais de 14 ou 15 eu deixei de sofrer de anorexia nervosa? Terei eu de sorrir perante um especialista que me diz "quando estiveres abaixo dos 17 é que podemos curar-te" ...caramba, estão à espera que eu chegue aos 17 para depois não conseguir parar? Depois de ter engordado este kilo nojento..falei com muitas raparigas de lá. nenhuma delas gostava dele. uma estava tão escanzelada que lhe implorou para ele a internar..e ele disse-lhe que "o facto de ela se querer internar só mostra que ela não era anorética"..pois, só tinha um IMC de 15 mas anorética é que não era..DECERTEZINHA!!! desculpa a minha revolta mas este tipo de coisas mexem de tal forma comigo que só me apeteceu fazer um post a falar da própria ignorância dos médicos! Não de todos, ÓBVIO, mas pelo menos este tocou-me no bichinho lá dentro. Foi quase como me dizer "tu és demasiado gorda para seres anorética"...será que não sabe que a anorexia é uma doença mental? ou serei eu que estou errada e a anorexia afinal tem tudo a ver com uma questão de peso? será que não percebeu que me pôs com uma vontade mórbida de emagrecer até ficar invisível? desculpa o desabafo."
Depois de publicado o testemunho acima (sem números) recebi este comentário da Vanessa Marsden que agradeço:
Cara ex-ana.
De facto é importante anonimizar o relato, mas as informações sobre peso e IMC são importantes para melhor entendimento doquadro e sem elas fica difícil entender o relato da utente. Estas podem ser publicadas sem problemas pois são apenas números, não sendo possível identificar alguém através do peso. Quanto ao critério diagnóstico, de facto se a utente não está com o peso a 85% ou menos do normal esperado para a idade e altura, não é Anorexia Nervosa (de acordo com os critérios do DSM-IV-TR e da CID-10). Entretanto, existem outras entidades diagnósticas que servem para avaliar pacientes que estão no limite dos transtornos mas não se encaixam completamente nos critérios. Para maiores informações, este artigo brasileiro elucida os diversos critérios:
http://www.scielo.br/pdf//rbp/v24s3/13964.pdf
Não seria ético por parte de qualquer especialista que leia o relato "diagnosticar" o quadro, visto que diagnóstico implica avaliação, o que é impossível de ser levado a cabo pela internet. Entretanto, posso sugerir que se a utente não está satisfeita com os serviços do médico para ela designado, ela está dentro de seus direitos em reclamar (no livro amarelo) e solicitar outro profissional. Nem o médico nem o paciente são obrigados a um contracto terapêutico se não conseguem conversar na mesma língua e os códigos de ética garantem o direito do paciente em solicitar outro profissional e do médico em negar consultas a um paciente (se ele não for o único médico da localidade e não for um caso de urgência). Se não há confiança no profissional não há como estabelecer rapport (que é a aliança terapeutica) e mesmo que o médico tivesse oferecido o tratamento desejado, a falta de confiança na relação já sinaliza ruptura e falha terapêutica no futuro.
Com os melhores cumprimentos
Vanessa Marsden
imagem flickr cc: (aqui)

Mar 24, 2010

.."A anorexia é uma teia..."


O testemunho que se segue termina assim:
"A anorexia é uma teia que nos enrola cada vez mais. Não conseguimos parar, queremos ficar sempre mais magras. Tenho medo sempre que ouço miúdas falarem em dietas. Apavora-me que fiquem como eu fui em tempos, pois sei que o bichinho continua lá dentro à espreita."
Com autorização da autora transcrevemos na íntegra um testemunho:
"Abro aqui uma excepção para falar de mim própria. Este não é o objectivo inicial do blog. No entanto, a minha maneira de ser e de enfrentar as situações, tem a ver com um conjunto de factores que moldaram a minha personalidade. É essa personalidade que me faz reagir e por isso se me conhecerem, talvez entendam o porquê de certas reacções.

Num post anterior veio á baila a alimentação. Este é para mim um tema delicado. Tenho uma espécie de guerra comigo mesma com esta questão. Hoje ao visitar o blog de uma amiga, vi que o conflito gerado com a nossa imagem, o que mostramos aos outros e aquilo que fazemos para mudar essa imagem, é muitas vezes difícil. A aparência é muito importante (e ainda bem!) e somos alertados cada vez mais para determinados problemas de saúde que se relacionam com o modo como nos alimentamos.

Conheci ao longo da vida muitas situações diferentes. Aprendi por isso a não julgar. Cada caso é um caso. Este é o meu.

Em criança sempre fui muito magrinha ( com 3 anos tinha 11Kg o que preocupava e de que maneira a minha mãe). Até aos 10 anos fui tendo peso abaixo da média, por isso quando começei a engordar um pouco, por volta dos 11 anos, a minha mãe achou óptimo. O corpo entrou em mudança e menstruei a 1ª vez aos 12 anos. A partir daí foi o grande salto. Passei de senhorinha a senhora em menos de três anos e por volta dos 15 anos tinha engordado realmente! Vestia 38 e tinha tendência para ancas e coxas, típico, não?

Os problemas começaram um pouco mais tarde, quando passou a ser evidente que os outros me viam como gorda, uma «rabo grande» com pouca motivação para sair ou «curtir» com coleguinhas de turma. A auto-estima foi-se e o isolamento passou a ser a única opção.

Depois de uma vida académica recheada de muito Bons e de notas 20, a faculdade era o caminho lógico. Mas o patinho feio queria ser cisne, queria mudar! Penso que os meus pais nem se aperceberam mas propositadamente fiz por concorrer a um curso (direito) para o qual sabia não ter vocação, a uma faculdade que não tinha nota para entrar (podia entrar em Lisboa mas decidi escolher Coimbra e não entrei por décimas). Não quis concorrer á 2ª fase e acabei por parar um ano.

Esse foi o ano da transformação. Tudo na minha vida se alterou. Eu, menina perfeita, princesa dos papás, que nunca tinha vontade de saídas, passei a sair mais e com novas companhias. Passei a mudar a minha forma de vestir e teimei em mudar o meu corpo. Primeiro foram as dietas de verão, aproveitar o tempo fresco para comer saladas e fruta, depois a redução das quantidades que ingeria. Aos 19 anos o meu físico estava muito melhor (tinha 52Kg para 1,56m ). Fiz o priemiro ano de faculdade no curso de gestâo de marketing e publicidade, um meio que tinha muito a ver com aparência, com o físico.

Deixei a casa dos pais. Viver sozinha foi uma festa. Ninguém podia controlar o que comia e as idas a casa ao fim de semana eram fugazes e sempre evitava perguntas.

Passei a fazer apenas uma refeição, sem carne ou peixe, apenas de legumes e só ao jantar. O almoço não me preocupava porque estava na faculdade e não ia comer. Mas entretanto achei que comer á noite não era bom, depois não gastava energia, então passei a comer um iogurte magro ao almoço e beber chás ao jantar.

Se tivesse de comer em casa dos meus pais, iludia com maçãs ou sumos de cenoura (mas passei a comprar livros de nutricionismo com informação sobre as calorias e antes de pôr na boca confirmava vezes sem fim, o valor energético da maçã média). O que me punham no prato acabava no fundo dos bolsos ou no lixo quando ninguém estava a olhar.

Estava nos 42kg quando apanhei uma pneumonia grave e tive de voltar a casa. Tinha tanta fraqueza que a minha mãe me dava o comer na boca (só sumos e fruta a meu pedido).

Aos 40kg o meu médico deu-me a mim e á família um prazo de 48H para começar a comer ou teria de ser inetrnada. Fiz um esforço sobretudo pela minha mãe, mas lembro o histerismo quando me obrigou a comer sopa com batata, pão e leite. Lembro as insónias (minhas e dela) por ter de me pesar e dizer ao médico que não baixara mais o peso. Lembro as milhentas flexôes matinais porque queria queimar as calorias «a mais» da fatia de queijo.

Quando conheci o meu marido, tinha 42kg. O carinho e a força que me deu, obrigando a ver no espelho tal como ele me via, levou-me a tentar fazer uma refeição de faca e garfo. Ele que tanto aprecia a boa comida, detestava comer sozinho e foi assim aos poucos que dois anos depois, quando casamos (tinha eu 25 anos) estava com 44kg. Tinha, mas depressa voltei aos 40kg! A minha preocupação em que a pílula me fizesse engordar foi a desculpa. Na realidade a aversão aos alimentos mantinha-se. Quando tentei engravidar o médico deu-me um ultimato, ou engorada ou não consegue. Três anos e dois abortos depois, veio o Rafa. O meu peso oscilou muito na gravidez. Uma anoréctica não quer comer mas não é burra.

Sabia que tinha de ganhar peso pela saúde do bébé. Foi por essa altura que uma grande amiga me consegui levar a descobrir outras formas de vida. Mais naturais, menos agressivas, as comidas de estilos vegetarianos ou mesmo macrobióticos, começaram a fazer parte do meu menú.

Aos pouco fui adaptando. Passei a ingerir mais quantidade de cada vez, passei a ter menos aversão a certos alimentos e começei a gostar muito de cozinhar. Introduzi a carne (só de aves, 2x por semana e peixe 3 a 4x) Não consigo beber leite mas optei pelos derivados da soja. Se me apetecer um doce, como mas não como mais do que 2 por semana e se o fizer num dia de semana, vou cortar noutra coisa qualquer.

Tenho como meta manter os 45/46kg, depois da segunda gravidez (em que engordei apenas 6 Kg) recuperei cheguei aos 48!

Sei que tenho de me alimentar. Tenho uma vida activa e duas crianças pequenas. Numa semana de mais stress, chego a perder três kg. Por isso luto por comer mesmo que não sinta vontade. Sei que se não fizer o pequeno almoço, posso andar o dia inteiro sem comer nada e não dar por isso!

Posso não ter a imagem ideal mas aprendi a viver comigo tal como sou. Aceito-me e quero continuar a cuidar de mim.

A anorexia é uma teia que nos enrola cada vez mais. Não conseguimos parar, queremos ficar sempre mais magras. Tenho medo sempre que ouço miúdas falarem em dietas. Apavora-me que fiquem como eu fui em tempos, pois sei que o bichinho continua lá dentro á espreita." Fonte (
aqui)
Fotografia: Simona Ghizzoni

Feb 28, 2010

>> pais: sofrimento e negação (testemunho)

Trancrevo abaixo um comentário recebido a um post anterior sobre os pais e a família e a relação com as doenças do comportamento alimentar. Também sei por experiência própria que se pode cair no inferno da anorexia ignorando em absoluto que essa doença existe. Foi o meu caso há muitos anos.

"Sim, por vezes os pais entram em negação quanto à doença. É duro demais para eles admitir isso. Pelo menos conscientemente. Também um grande problema de alguns pais (o caso dos meus) é que não sabem nem compreendem a doença. Simplesmente falam que eu é que escolhi ter a doença, quando esta se apoderou de mim sem eu me aperceber. Aliás, há 10 anos atrás nem eu sabia que existiam doenças desse tipo."

Feb 26, 2010

>> os pais: "eu estou aqui" (testemunho de doente portuguesa em recuperação)

Transcrevo o comentário recebido de T., na sequência do post anterior:

OS PAIS são "sem dúvida um elemento fulcral na recuperação, mas sabes, muitas vezes vão às terapias familiares, entram nas consultas de psiquiatria para ouvir no final, aquilo que o médico tem a dizer sobre a evolução da filha e sobre novos comportamentos a adoptar em casa... mas há pais que simplesmente não conseguem...quantas vezes ouvi "eles sempre estiveram em negação, estão ausentes, não vão mudar..." isto depois de ter tentado até à exaustão que não fossem chamados...
Aprendi que a melhor ajuda que me poderiam dar era não interferir...porque apoiar-me doia-lhes muito e não aguentavam.
E a nossa relação só melhorou quando eu melhorei, quando já não era tema, quando já não se falava...
Às vezes é melhor assim...que os pais aprendam até onde podem ir...
Tive medo e senti-me muito sozinha, mas hoje entendo, perdoei.
Que os pais não neguem que a filha está doente, mas que ajudem até onde podem (conversem com os médicos!) e não vão contra eles... Da equipa multi-disciplinar diria que a familia tem um papel, faz parte dela, nem que seja com carinho e com um "eu estou aqui...".

Feb 25, 2010

>> Ensinar os pais a ... (testemunho recuperação)


Num blogue que sigo encontrei um comentário que não transcrevo integralmente mas apenas de memória. A ideia era de que ao contrário da equipa multidisciplinar de um hospital público português que acompanhava a doente, a família dava-lhe apoio mas não conseguia reconhecer todo o esforço efectuado na recuperação. A família não estava perfeitamente consciente da doença, não compreendia a doença. E acrescentava a ideia de que também os pais não tinham recebido aulas sobre doenças alimentares... Vem esta referência a propósito de testemunho que foi deixado como comentário num blogue norte americano (are you eating with your anorexia?) (aqui) sobre a necessidade de envolvimento, participação e comunicação da família (em minha opinião o que se aplica à família aplica-se também aos amigos ou a quem vive com. Actualmente jovens com anorexia podem ou não viver com os pais ou os pais viverem muito longe).
Reproduzo em tradução livre e na integra pois penso que apesar de cada caso ser um caso terá aspectos comuns com outros.
"Levou muito tempo até que os meus pais o assumissem a minha doença. Questionei-os muitas vezes e pedi-lhes ajuda (estava na Universidade) e eles repondiam: "É uma fase" (Apesar de ter amigos da universidade que diziam aos meus pais que eu não estava a comer o suficiente). Já antes comentei o post: "E quando os pais estão em negação ainda mais do que o próprio doente?" "BUT WHAT ABOUT WHEN PARENTS ARE IN DENIAL EVEN MORE THAN YOU ARE IN DENIAL?!" É o meu caso. Penso que as terapias assentes na família [ em inglês:family-based treatment (FBT)] , só funcinam se os pais já não estiverem em negação em relação à existência da doença[esqueciaana: por exemplo acharem que não é uma doença, que será uma fase e irá passar naturalmente, resolvendo-se por si própria]... mas isto não parece possível se os pais não conhecerem nada sobre doenças do comportamento alimentar.(...) Sei que os meus pais podem ser ensinado. Os meus pais gostam muito de mim. Os meus pais estão confusos e amedrontados e magoados ( as mentiras do doente que rodeiam os transtornos alimentares não ajudam). [...]Os meus pais mostraram-me que querem ser incluidos no tratamento , mas precisam ser ensinados em ralação a como serem incluídos no tratamento. [...] Então qual é a minha ideia? (1) os pais querem ajudar os filhos (2) eles querem ser parte do processo de recuperação e cura mas precisam ser ensinados sobre como fazerem parte do processo [esqueciaana: nos tratamentos de tipo FBT] (3) precisam de aprender sobre as doenças do comportamento alimentar e (4) Querem ser capazes de falar sobre alimentação e doenças associadas com os filhos, mas as famílias também precisam de ser ajudadas nessa comunicação. O doente não está em condições de explicar a situação. Portanto o processo de comunicação também precisa ser apoiado/ensinado/aprendido. E é possível! sei isso por experiência própria. A minha estória é uma exemplo de pais em negação que passaram para pais envolvidos. E francamente, faz tooooooda a diferença. Estive a ser tratada 3 anos e os meus maiores progressos na recuperação foram nos últimos meses a partir do momento que os meus pais se envolveram.
Estou consciente que não é a situação de todos...mas é algo que talvez valha a pena partilhar..."
A., 24 anos, US
Fotografia: Karla Gachet, Equador. Esta fotografia recebeu o 3º prémio na categoria histórias da vida quotidiana (World Press Photo). É uma imagem pouco trivial de uma família mas que me sugere uma família feliz. ( a música? tango) Clique na imagem para ver ampliada.