O texto seguinte tenta descrever o que são as chamadas vozes "negativas" ouvidas pelos que sofrem de Doenças do Comportamento Alimentar. Foi retirado do site pró-recuperação Something Fishy. Tratam-se de “vozes” no sentido figurado."Quando sofremos de uma doença do comportamento alimentar, as "vozes" que ouvimos, são as "vozes" que damos ao nosso próprio auto-ódio e à falta de auto-estima. São muitas vezes referidas como vozes negativas, registos negativos ou pensamentos negativos. Para alguém que nunca tenha sofrido de uma doença do comportamento alimentar (anorexia nervosa, bulimia), a melhor forma de compreender o que são as "vozes" é imaginar diálogos que pode ter consigo próprio. Por exemplo, se cometeu um erro e se auto-censurou em pensamento em relação a esse erro. Outro exemplo, quando é necessário tomar uma decisão difícil e se reflecte sobre os prós e os contras.
Imagine agora que a sua auto-reflexão e os seus pensamentos eram apenas negativos e que a única maneira de se livrar dessa voz "negativa" era pensar em comida, peso e alimentação. Se sofremos de anorexia nervosa e/ou bulimia sentimos uma confusão enorme em escutar essas “vozes” … elas falam de um lugar algures dentro de nós que está invadido pela baixa auto-estima. Que quer acreditar que não merecemos ser felizes, que não prestamos para nada.
Por vezes essas vozes são descritas pelos doentes como “pensamentos em voz alta”, “ a minha cabeça” ou como “voz ou vozes”.
Essas vozes dizem coisas que nos convencem que somos estúpidas/os, inúteis, merecemos ser infelizes, para não comermos, para continuar a comer ou pra nos livrarmos do que comemos. Dizem-nos que “ o mundo seria melhor sem ti”. Vêm de um lugar dentro de nós atormentado pelo pessimismo e auto-ódio incentivando-nos a continuar com o distúrbio alimentar e a convencer-nos que não merecemos recuperar, que merecemos uma vida de dor.
As “vozes” dos nossos distúrbios alimentares tentam também convencer-nos que não temos força de vontade, que somos fracas/os quando comemos, e que nunca ninguém irá gostar de nós. Essas “vozes” intimidam-nos com culpas e por vezes repreendem-nos pelo comportamento alimentar anormal.
A recuperação não é fácil e exige esforço. Estamos a lutar contra nós próprias/os ( e contra o que as nossas “vozes” negativas nos estão sempre a lembrar) estamos a lutar de facto pelo que merecemos (recuperação, felicidade e amor-próprio!). Aprender a lidar com essas “vozes” é uma tarefa difícil ... aprender a não as ouvir pode ser como matar a/o nossa/o melhor amiga/o. É confuso e assustador. Em muitos casos a nossa doença de comportamento alimentar manteve-nos focadas/os fora de nós próprias/os e das nossas emoções, e se pararmos de ouvir as "vozes", então o que irá alimentar a nossa doença?
Um dos ingredientes essenciais para a recuperação está a aprender a amarmo-nos a nós próprias/os, e as “vozes” lutam desesperadamente para que isso não aconteça. Se conseguirmos combater a voz ou as vozes dentro de nós que continuam a reforçar a nossa negatividade, vamos conseguir encontrar o nosso caminho para o outro lado, para a cura. (...)
Se ama alguém que está neste sofrimento, recorde estas breves notas. Procure que esse alguém encontre também apoio especializado. O apoio a quem ama constrói-se com amizade, incentivo, optimismo e não a ampliar as “vozes” negativas com culpas ou criticismos. (...).
Na recuperação os doentes lutam contra as “vozes negativas” dentro deles e encontram os próprios caminhos para (…)
Nota: É também possível para um doente com anorexia ou bulimia ouvir vozes de facto, [tal como acontece com um doente esquizofrénico] Essas vozes reais podem ser resultado da má nutrição extrema ou desidratação, ou de alguma doença relacionada com outros transtornos psiquiátricos. Na maioria dos casos, o uso mais comum para o termo "vozes", é como foi descrito anteriormente, mas existem casos em que um doente pode realmente ter alucinações auditivas (...). As alucinações podem também ser um efeito secundário de alguns medicamentos (...).