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os 10 posts mais lidos (esta semana) seguidos dos posts mais recentes (26 Outubro 2016):

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Jan 29, 2010

>> Terapia pela fotografia II (um caso)

Já antes tinhamos aqui referido aqui uma informação sobre a eventual existência de terapias associadas à anorexia envolvendo fotografia. Uma notícia recente relata um caso em Inglaterra em que a fotografia foi importante para a doente (Samantha Smith) tomar consciência da situação em que se encontrava, no fundo assumir a doença, grande passo para iniciar a recuperação. Samantha Smith fez também um diário fotográfico da sua recuperação (algumas imagens na notícia original). A notícia publicada há dias no dailymail (texto e fotografias aqui, em inglês) foi também dada num site do Brasil (aqui) que resumimos abaixo:

O primeiro passo para que uma pessoa com anorexia nervosa procure tratmento é admitir que tem o problema. E isso não é tão fácil como pode parecer (afinal 'ninguém' quer estar doente). Dizer simplesmente ao doente que está magro demais normalmente não o faz aperceber-se da situação. No caso da inglesa Samantha Smith, de 38 anos, a salvação foram as fotografias que tinha e que tirou a ela própria durante a recuperação.

Com 1,63 m, 35 kg, cabelos ralos e usando roupas de crianças, ignorava qualquer apelo da família até que seu pai lhe mostrou, em 2008, uma fotografia recente ao lado de uma tirada quando tinha peso normal. Ficou chocada. "Parecia 30 anos mais velha e, finalmente, pude ver o que todo mundo podia: uma mulher morrendo. Queria voltar a parecer como a mulher que costumava ser", disse ao jornal Daily Mail.
(...)
Samantha passou a introduzir aos poucos mais alimentos à sua dieta e decidiu fotografar-se mensalmente durante 16 meses para registar seu progresso
. Resolveu também tornar seu diário fotográfico público com o intuito de ajudar outros doentes. "Graças ao diário, podia ver o meu rosto a transformar-se. As maçãs do rosto a encherem, as rugas a ficarem menos visíveis e minha pele a deixar de estar pálida e acinzentada. Meu cabelo começou também a ficar mais saudável"
Por volta de maio do ano passado, já havia voltado a usar a antiga numeração de roupa. Mas, ao longo do processo, precisou muito do apoio da família. No começo, chorava durante todas as refeições, achando que cada pedacinho de comida a deixaria gorda.
Imagem: flickr cc aqui

Jan 26, 2010

>> reunião AFAAB

Recebemos esta informação da AFAAB Imagem flickr cc (aqui)

Jan 25, 2010

>> Recuperar ( o mais difícil é ...)

Transcrevo em versão portuguesa o post deixado aqui por Carrie Arnold . Questiona aspectos muito importantes da recuperação que ao envolver o ultrapassar de problemas de personalidade pode criar a ideia falsa de 'descaracterização'. Como pergunta a canção "pode alguém ser quem não é ?". Respondo: não. Mas pode sem deixar de ser quem é , conhecer-se melhor e aprender a lidar com traços da personalidade inerentes à doença de que se está a libertar. Por isso o papel dos especialistas é tão importante na recuperação. Por isso depois de recuperadas nos sentimos ( e somos!) pessoas melhores.


Superar os principais traços de personalidade

"Uma das minhas parceiras de recuperação no Twiter escreveu esta semana:

"É mais que evidente que para se recuperar de uma doença do comportamento alimentar é necessário superar os traços de personalidade neurológicos e psicológicos" .

E eu tive que concordar. Outra das minhas amigas, Finding Melissa, questionou com razão se poderíamos realmente superar esses traços fundamentais de personalidade. Pelo contrário, disse Melissa, a tarefa é aprender a viver com eles. O meu terapeuta coloca a questão de modo um pouco mais informal: tenho que aprender a usar os meus traços de personalidade para o bem em vez de ser para o mal. Travando uma guerra com nós próprias estaremos condenadas a perder, de alguma maneira, o que somos. E isso é realmente a parte mais difícil da recuperação. A parte mais difícil não é comer e ganhar peso, mas sim a tarefa de nos conhecermos. Conhecer as nossas próprias motivações. Conhecer as nossas vulnerabilidades. Conhecer os nossos pontos fracos. Saber como se pode entrar em crise, ou antecipar a crise. Conhecer os sinais das recaídas. Conhecer os sinais antes dos sinais.

A minha recuperação da anorexia mudou-me profundamente, não sou a mesma pessoa, nem quero ser. Apesar de ter mudado de forma muito profunda, ainda tenho a mesma personalidade e temperamento. Ainda estou frequentemente ansiosa e irritável (irritabilidade, aprendi que é sempre um sinal de ansiedade), ainda sou perfeccionista, eu ainda tenho muitas situações do pensamento preto ou branco [tudo ou nada] e de outras distorções cognitivas. Estes aspectos não são susceptíveis de mudança, mesmo com a terapia. Um terapeuta uma vez perguntou-me: "Tem uma necessidade de controle?" A verdade é, sim, tenho. A verdade é que eu ainda tenho. Portanto, talvez eu nunca vá superar completamente os meus traços de personalidade inatos, e não estou particularmente preocupada com isso. Mas o trabalho de tentar viver em paz e em (relativa) harmonia com eles é desgastante, cansativo, difícil . Não sei quem esteja em recuperação ou que se tenha recuperado que não tenha feito isso. A recuperação transforma-nos mas nós ainda somos as mesmas pessoas."

Well you have suffered enough
And warred with yourselfIt's time that you won...
"Falling Slowly," Glen Hansard and Marketa Irglova
Imagem: ilustração de Clare Owen no seu blogue aqui

Jan 21, 2010

>> Carta Aberta ( testemunho de uma jovem)

Transcrevo em seguida um texto escrito pela autora do site Let us ... (aqui) . São palavras pensadas, sentidas e certeiras! Leiam e comentem (de preferência no blogue onde foram originalmente publicadas, aqui).


quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
CARTA ABERTA
"Já tentei começar a escrever este comentário várias vezes, no entanto, nunca o consigo terminar porque isto não é feito de ânimo leve de maneira nenhuma, exige cuidado com as palavras porque não pretendo ferir ninguém mas senti que agora, mais qe nunca, o meu parecer e a minha opinião tinha de vir ao de cima e então nada melhor que esta "carta aberta" para todas as quantas mais eu conseguir comentar.
Para quem não sabe a minha história eu estou anorética há dois anos e meio. Tudo começou com uma pequena dieta em que se excluiam os doces e tudo terminou numa outra dieta qe excluía tudo. Tive dois anos mais ou menos controlada em termos de peso..apesar de ter sido sempre considerado baixo tendo em conta o índice de massa corporal mas a verdade é que apesar de todas as dietas descabidas, depressões aliadas à falta de nutrientes, etc...as coisas foram-se aguentando!
Há seis meses atrás decidi começar a falar abertamente sobre a anorexia no meu blog (entretanto, para quem não teve a oportunidade de ler eu apaguei tudo o qe ele continha sobre a doença). Conheci várias pessoas com o mesmo problema qe eu tendo inclusive travado uma verdadeira amizade com três delas! Comecei o blog há seis meses com um IMC de 18, 1.80m e 61kg. Terminei-o ontem com 52kg, e um IMC de 16.
Perdi a conta à quantidade de vezes em que numa das minhas interminaveis insónias me levantava da cama e ia directa ao computador ler as novidades alheias. Os outros blogs davam- me força para continuar a emagrecer! As outras meninas ajudaram-me a acreditar que eu era capaz de me controlar ainda mais. Frases como "Força meninas nós conseguimos ser magras", ou "Controle acima de tudo" perpetuaram-se na minha cabeça desde os dias em que eu decidi fazer parte "desse grupo". Esse grupo é constituido por raparigas incriveis, extremamente inteligentes e muito talentosas. Pessoas qe se dão muito facilmente não sei se por uma certa carência se em busca de mais um pouco de esperança!

Cabe-nos a nós, a cada uma, utilizar o blog para incentivar uma cura, um pequeno passo em frente e nunca, repito, nunca, o oposto. Eu mesma errei tantas vezes quando fiz deste espaço um mero diário dos meus cardápios alimentares..um sítio onde me limitava a auto-glorificar por ter conseguido só comer x ou y. Não faço a mais pequena ideia de quantas raparigas poderei ter prejudicado..porque eu mesma quando aqui cheguei começei por ler um blog de uma rapariga qe há seis meses estava com 60kg e neste momento está com 50kg. Como sabia bem ler os comentários dos outros a encherem-nos de coragem, de força, de vontade..vontade de nos auto-destruirmos.
Mesmo que inconscientemente sei qe fui incorrecta e irresponsável ao expor-me, a mim, à minha vida, à vida da minha família. Há pessoas aqui que estão neste mundo há muito tempo e apesar de eu saber que a anorexia não se escolhe e que não é por lermos um blog que nos tornamos doentes, TODAS NÓS SABEMOS QUE TUDO COMEÇA COM UMA DIETA. Uma pequena dieta. Uma ideia. Todas nós sabemos que, como qualquer doença, quando apanhada no início é muito mais provável ser curada do que como tantas de nós que sustentamos esta prisão há anos a fio..entristece-me ver cada vez mais raparigas a "entrar aqui". Estristece-me porque algumas delas não sabem mesmo onde se estão a meter..e revejo-me delas, há dois anos e meio atrás, a pensar qe quando estivesse magra ia ser mais feliz..não é a magreza que nos traz algo tão bonito como a felicidade.

Cabe-nos a nós, conscientes do problema que temos, alertar estas raparigas para o perigo que estão a correr. A Anorexia mata! Já nem falo em fazer incentivos à procura de ajuda psicológica, apesar de considerar a mesma uma peça fulcral para a cura, mas sim para terem todas cuidado com o que escrevem..porque podemos estar, mesmo que sem querer, a ajudar alguém a matar-se.

A beleza está nos olhos de quem a vê...se não gostarmos de nós, quem gostará? "

Jan 16, 2010

>> Ave Fenix ( testemunho em Confesiones de Ana)

Reproduzo abaixo um post escrito por uma jovem espanhola Ana no blogue Confesiones de Ana. Escrevi-lhe e ela concordou em que o post fosse aqui integralmente reproduzido em língua portuguesa. Obrigada Ana pela tua sensibilidade e coragem ! O texto original pode ser encontado aqui. São palavras de esperança para quem como ela segue segura no caminho da recuperação e também para quem se encontra ainda em encruzilhadas. Eu gostei de ler, como muitos outros posts no mesmo blogue.
14 de janeiro de 2009

"Conta a lenda que no Paraíso, sob a Árvore do Bem e do Mal, floriu uma roseira. E perto da primeira rosa nasceu uma ave com uma linda plumagem e um canto incomparável. Essa ave foi o único ser que não quis provar os frutos da Árvore. Quando Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, caiu sobre o ninho dessa ave uma centelha da espada de fogo de um Querubim, e o pássaro ardeu num ápice.

Mas, das próprias chamas, surgiu uma nova ave, o Fénix, com uma plumagem magnífica e única, asas vermelhas e corpo dourado.

A imortalidade do Fénix foi a recompensa pela sua obediência ao preceito divino. Recebeu também outras qualidades como o conhecimento, a propriedade curativa das suas lágrimas, e sua força incrível. Ao longo das suas múltiplas vidas, a missão do Fénix foi transmitir conhecimentos que foi guardando desde a sua criação junto à Árvore do Bem e do Mal, e inspirar o trabalho dos pesquisadores do conhecimento, fossem artistas ou cientistas."
Acredita-se que a Fénix foi o único animal do Paraíso que resistiu à tentação, o que fez ele ser um eterno.

E é assim que me sinto. Como uma Ave Fénix que renasce das suas cinzas, deixando para trás a tentação o pecado.

Vejo-me agora: irreconhecível. Olho-me no espelho e tenho dificuldade em identificar a imagem reflectida à minha frente. Mas sou eu, um novo eu, ressuscitado das cinzas, das cinzas das chamas que me foram destruindo-me durante muitos anos. E, tal como a ave Fénix , ressurgi com uma nova imagem que, por muito que me custe, tenho que admiti-lo, é muito mais atraente. Deixei de ser uma menina e transformei-me numa mulher. Uma mulher com curvas, um longo cabelo brilhante, um pele radiosa, uns olhos a brilhar, um sorriso permanente.

Renunciei ao pecado, à tentação e livrei-me das chamas que me consumiam para me converter em quem sou hoje.

Não posso enganar-me a mim própria, tudo o que me magoa continua a estar aqui. Todas as razões que me fizeram mergulhar no mundo sombrio da anorexia estão aqui, não desapareceram, e não desaparecerão. Mas eu aprendi a viver com elas.

Usei a minha anorexia como uma forma de enfrentar meus medos, acreditando que desse modo deixariam de me magoar, deixariam de me amedrontar. Mas estava enganada. Os medos não desapareceram, apenas os transformei em novos medos. Aprendi a não temer a morte, a não temer o passar dos anos, a não ter medo da mudança permanente das coisas, a não temer a transformação do mundo. Mas novos medos nasceram que me tornavam o dia a dia cada vez mais difícil.

Resisti à tentação e livrei-me das chamas, renasci das cinzas, mas os meus medos não desapareceram. Continuo a ter medo da morte, continuo a ter medo do passar dos anos, da instabilidade do mundo. E os medos afectam-me, magoam-me e não posso mudar.

Às vezes tento lembrar-me de como era fácil viver num mundo em que, ao contrário da grande maioria das pessoas não tinha medo da morte. Mas eu sei que era apenas um engano, porque a verdade é que não deixei de ter medo, apenas mudou o meu medo para outros aspectos da minha vida e acabou por ser tudo muito mais difícil ainda.

Não é fácil viveres com os teus medos. Sou uma pessoa extremamente sensível, tudo me afecta muito e às vezes, choro sem motivo. Mas também sorrio sem motivo pelo simples facto de que, apesar dos meus medos, estou satisfeita com o que tenho.

E estou a aprender a gostar do meu corpo. Eu sei que nunca chegará o momento em que direi "Estou satisfeita com meu corpo", não sei se pela minha própria situação ou se pelo facto de ser mulher. Mas hoje, eu começo a aceitar o meu corpo, a aceitar a imagem reflectida no espelho, a não temer tão intensamente uma refeição, uma reunião de família, o verão; a não temer as mudanças naturais do meu próprio corpo, um corpo que começo a aceitar como "algo" belo por ser exactamente como é. E custa-me aceitá-lo, mas começo a fazê-lo (com certeza que com alguns quilitos a menos seria muito mais fácil).

Renasci das cinzas que me consumiram e não foi fácil. Mas fi-lo e ganhei o prémio da vida eterna. E valeu a pena. É difícil renunciar à tentação da anorexia, que sempre considerei como uma coisa "eterna", que gostaria de ter para sempre, mas temos que mudar essa concepção errada. E olhar para o espelho, pelo outro lado, pelo lado da realidade onde a eternidade só é alcançada renascendo das cinzas e vivendo a eternidade da vida com os medos e incertezas que isso implica, mas a vida, ao fim e ao cabo, a vida que é a base da eternidade"

ANA
http://www.elavefenix.net/

Jan 9, 2010

>> Entrevista sobre Anorexia (na SIC dia 7 de Janeiro 2010)


Rita Ferro entrevista a Dra. Isabel do Carmo (HSM), José Delgado (AFAAB) e Ana Sofia Fernandes (ex-anoréctica). nota: o video, com duração total de 22 minutos, pode levar alguns segundos iniciar-se. O programa conta ainda com a participação pelo telefone de Mafalda Neves cujo testemunho em video em 2008 pode ser visto num blogue aqui.
A Professora Doutora Isabel do Carmo tem vários livros publicados (pela dom quixote) um deles reprozuz-se a capa em cima.

Jan 7, 2010

>> Anorexia e inteligência (interrogações de Melissa)


Porque é que uma mente inteligente decide coisas tão estúpidas como comer apenas maçãs e alface (ou até nem comer nada)?

Porque é que o cérebro perde tempo a contar calorias e engendrar estratégias de passar fome? (*)
 
Algumas das razões possíveis indicadas pela Melissa para associação paradoxal entre inteligência e anorexia nervosa são : perfeccionismo, competitividade, estar numa onda ou ritmo diferente da maioria [ uma forma de ser diferente pergunto], pensar muito nas coisas. "

A inteligência não leva à doença de comportamento alimentar mas pode mantê-la. Cria condições para ela ir progredindo" comenta a Melissa.
 
Comentário de esqueciaana: Para mim, ex-anorectica, falta acrescentar uma coisa que não é pormenor: a inteligência cria também condições para que, tomada consciência da doença o perfeccionismo, etc. ( todos aqueles "maus da fita") sejam aplicados no bom sentido o da RECUPERAÇÂO (e passem ser alguns heróis na história).










(*) Encontrei estas perguntas na página da Melissa Wolfe de 29 anos (aqui) onde ela se interroga sobre a sua experiência de recuperação de uma anorexia nervosa . Tive conhecimento da página ao visitar os links de página d e um centro de investigação sobre doenças do comportamento alimentar de uma universidade britânica, Eating Disorders Research do King's College London (aqui) . É uma página muito rica em informação e disponibilizando resultados sobre as últimas investigações, nomeadamente sobre a anorexia nervosa. Acrescentei esse centro às ligações em inglês e passarei a ser visitante regular e divulgadora aqui neste blogue de alguma da informação disponibilizada. É muito revelador o título de uma das entradas dessa página do King's College: O QUE SABEMOS ( What we already know) a lembra-nos o muito que ainda existe para esclarecer.
 


 

 

Jan 6, 2010

>> " O problema era comigo mesma..." (testemunho)

Encontrámos este testemunho (integral aqui na revista Marie Claire, globo Brasil, entrevista a Fernanda do Valle autora de um livro sobre a anorexia pela jornalista Letícia González). As imagens- com mais e menos photoshop mostram capas recentes da revista Marie Claire em quatro países e ilustram a adaptação aos diferentes contextos/mercados (?, Rússia, França, Índia )"Fernanda hoje, pesando 10 quilos a mais que em 2008, conta em livro o drama que viveu Prestes a completar 30 anos, a turismóloga Fernanda do Valle desencadeou um pico do distúrbio que a acompanhava desde a adolescência. Por conta de um conselho médico que limitava sua dieta, simplesmente parou de comer. O problema cresceu na proporção inversa dos números na balança. Quanto mais emagrecia, mais pensava “só outro quilo a menos”. Até que, depois de uma primeira internação e a certeza de que controlava seus impulsos, teve um colapso que quase lhe custou a vida. Em “Eu, ele e a enfermeira...na luta contra a anorexia”, lançado nesta quinta-feira, ela conta os altos e baixos da doença - e eles são muitos.
Fernanda conversou por telefone com Marie Claire Online e revelou as partes mais difíceis dessa luta contra os próprios pensamentos. Confira:
Marie Claire - No livro, você diz que a sua anorexia foi desencadeada por um diagnóstico de hipoglicemia. Como isso pode acontecer?Fernanda do Valle - Eu tenho transtorno alimentar desde os 12 anos, mas convivi com ele por anos e minha família nunca notou. Quando comecei essa dieta (o médico havia cortado doces, açúcares, frituras e carboidratos de farinha branca), eu fiquei sem opções. Aí eu perdi a mão de vez.MC - Como eram os seus pensamentos em relação à comida?FV - Meu pensamento sempre foi obsessivo pela magreza. Meu pai e minha irmã mais velha tinham sobrepeso e, no pânico de engordar, eu tentava criar uma margem de segurança de magreza. Eu sabia o valor nutricional de cada alimento. No final do dia, fazia a conta para ver se batia com o que eu queria. Então, programava o dia seguinte.
MC - Como era a sua alimentação?
FV - Eu fazia tudo errado. Ficava muito tempo sem me alimentar e, quando comia, perdia a mão e comia demais. Chegava a fazer 24 horas sem comer. Toda segunda-feira começava um regime novo, sempre por conta. Além disso, comia e ia correndo para a academia queimar o que havia ingerido. Comer de três em três horas só entrou na minha vida depois do tratamento contra a anorexia.
MC - Qual foi o seu menor peso?
FV - Eu cheguei a pesar 41 kg.
MC - Por que você acha que teve tantos altos e baixos no tratamento?
FV - Porque os pensamentos obsessivos são muito fortes. Eu estava vendo uma cena na novela (“Viver a Vida”, da TV Globo) em que a Bárbara Paz dizia
“eu quero melhorar, mas não consigo”, e eu senti aquilo dentro de mim. Você tem a consciência, mas a doença é muito forte. Depois que você aceita (se tratar), ainda tem de lutar contra os seus pensamentos.MC - O que você sentia quando ganhava peso?
FV - Eu tinha muito medo de perder o controle. Sonhava que acordava e não conseguia levantar da cama de tão gorda que estava.
Pensava que as pessoas não gostariam de mim se fosse gorda.MC - Você tinha medo de perder o amor do seu namorado?
FV - Na época eu estava tão egoísta e obsessiva comigo que eu nem pensava nos outros. O problema era comigo mesma. Ele me pedia para ganhar peso, pois havia me conhecido com 10 quilos a mais, mas eu não dava bola.
MC - Por que os outros não percebiam o que se passava?
FV - Eu era uma bela de uma atriz. Não fazia a compensação na frente dos outros. Às vezes dava desculpas como “já comi no colégio”, “jantei em casa”, “estou com dor de garganta”. Desculpas existem muitas.
MC - Você se considera uma pessoa ansiosa?
FC - Sim, eu ainda me considero uma pessoa muito ansiosa. Tenho que me vigiar para não fazer três coisas ao mesmo tempo, não puxar o laptop quando estou comendo, não levantar. Tenho dificuldade de slow-down.
MC - Você se pesava muitas vezes?FC - Muitas vezes por dia! Eu tinha balança em casa e, se passava na farmácia, parava para me pesar. Pesava antes e depois da atividade física. Eu era obcecada pelo número. Hoje me peso só na nutricionista.
MC - Como você se via?
[ continuar a ler
aqui na revista Marie Claire on line]LIVRO: "Eu, ele e a enfermeira... na luta contra a anorexia"
AUTORA: Fernanda do Valle
EDITORA (Brasil): Clio

Jan 2, 2010

>> Recuperar (testemunho de Confesiones de Ana)


No blogue confesiones de Ana pode ser lido (em espanhol) o testemunho de uma jovem que luta e vence a anorexia nervosa. Seguem alguns extractos desse testemunho.
[...]
"Estou demasiado ocupada a viver a vida.
Acho que pela primeira vez em muitos anos estou a começar a fazer algo que deveria ter feito há muito tempo; viver.
Perdi muitos anos da minha vida concentrada apenas na minha doença [anorexia nervosa], na minha obsessão, e agora começo a aperceber-me do que perdi. Começo agora a desfrutar de algumas coisas que nunca fui capaz de aproveitar. E vale a pena.
Não é fácil, claro que não é.
[...]
Não posso dizer "Eu já não sou anoréctica", mas acho que eu não posso dizer "eu sou anoréctica”. Simplesmente luto contra a anorexia. Não é fácil. Há sempre coisas. Pequenas coisas, detalhes, sentimentos ... que te fazem retomar o medo, que te recordam como era a tua vida antes.
[...]
Há poucos dias alguém me perguntou qual o meu objectivo para o ano novo. É simplesmente viver e aproveitar cada momento e fazer cada momento valer a pena.
O meu desejo para 2010 é que todos os que me lêem regularmente aprendam também que viver vale a pena e que há coisas pelas quais vale a pena viver. "

Dec 20, 2009

>> para uma jovem muito corajosa ...

...que sabe que o sol acaba SEMPRE por vencer as nuvens

Dec 5, 2009

>> as "vozes" dentro de nós

O texto seguinte tenta descrever o que são as chamadas vozes "negativas" ouvidas pelos que sofrem de Doenças do Comportamento Alimentar. Foi retirado do site pró-recuperação Something Fishy. Tratam-se de “vozes” no sentido figurado.
"Quando sofremos de uma doença do comportamento alimentar, as "vozes" que ouvimos, são as "vozes" que damos ao nosso próprio auto-ódio e à falta de auto-estima. São muitas vezes referidas como vozes negativas, registos negativos ou pensamentos negativos. Para alguém que nunca tenha sofrido de uma doença do comportamento alimentar (anorexia nervosa, bulimia), a melhor forma de compreender o que são as "vozes" é imaginar diálogos que pode ter consigo próprio. Por exemplo, se cometeu um erro e se auto-censurou em pensamento em relação a esse erro. Outro exemplo, quando é necessário tomar uma decisão difícil e se reflecte sobre os prós e os contras.
Imagine agora que a sua auto-reflexão e os seus pensamentos eram apenas negativos e que a única maneira de se livrar dessa voz "negativa" era pensar em comida, peso e alimentação. Se sofremos de anorexia nervosa e/ou bulimia sentimos uma confusão enorme em escutar essas “vozes” … elas falam de um lugar algures dentro de nós que está invadido pela baixa auto-estima. Que quer acreditar que não merecemos ser felizes, que não prestamos para nada.
Por vezes essas vozes são descritas pelos doentes como “pensamentos em voz alta”, “ a minha cabeça” ou como “voz ou vozes”.
Essas vozes dizem coisas que nos convencem que somos estúpidas/os, inúteis, merecemos ser infelizes, para não comermos, para continuar a comer ou pra nos livrarmos do que comemos. Dizem-nos que “ o mundo seria melhor sem ti”. Vêm de um lugar dentro de nós atormentado pelo pessimismo e auto-ódio incentivando-nos a continuar com o distúrbio alimentar e a convencer-nos que não merecemos recuperar, que merecemos uma vida de dor.
As “vozes” dos nossos distúrbios alimentares tentam também convencer-nos que não temos força de vontade, que somos fracas/os quando comemos, e que nunca ninguém irá gostar de nós. Essas “vozes” intimidam-nos com culpas e por vezes repreendem-nos pelo comportamento alimentar anormal.
A recuperação não é fácil e exige esforço. Estamos a lutar contra nós próprias/os ( e contra o que as nossas “vozes” negativas nos estão sempre a lembrar) estamos a lutar de facto pelo que merecemos (recuperação, felicidade e amor-próprio!). Aprender a lidar com essas “vozes” é uma tarefa difícil ... aprender a não as ouvir pode ser como matar a/o nossa/o melhor amiga/o. É confuso e assustador. Em muitos casos a nossa doença de comportamento alimentar manteve-nos focadas/os fora de nós próprias/os e das nossas emoções, e se pararmos de ouvir as "vozes", então o que irá alimentar a nossa doença?
Um dos ingredientes essenciais para a recuperação está a aprender a amarmo-nos a nós próprias/os, e as “vozes” lutam desesperadamente para que isso não aconteça. Se conseguirmos combater a voz ou as vozes dentro de nós que continuam a reforçar a nossa negatividade, vamos conseguir encontrar o nosso caminho para o outro lado, para a cura. (...)
Se ama alguém que está neste sofrimento, recorde estas breves notas. Procure que esse alguém encontre também apoio especializado. O apoio a quem ama constrói-se com amizade, incentivo, optimismo e não a ampliar as “vozes” negativas com culpas ou criticismos. (...).
Na recuperação os doentes lutam contra as “vozes negativas” dentro deles e encontram os próprios caminhos para (…)
Nota: É também possível para um doente com anorexia ou bulimia ouvir vozes de facto, [tal como acontece com um doente esquizofrénico] Essas vozes reais podem ser resultado da má nutrição extrema ou desidratação, ou de alguma doença relacionada com outros transtornos psiquiátricos. Na maioria dos casos, o uso mais comum para o termo "vozes", é como foi descrito anteriormente, mas existem casos em que um doente pode realmente ter alucinações auditivas (...). As alucinações podem também ser um efeito secundário de alguns medicamentos (...).
Foto flickr cc aqui

Nov 24, 2009

>> Calling all ED sufferers

Recebemos da Carrie Arnold (ver mais sobre esta autora aqui) a informação abaixo referente a um livro que se encontra em preparação por June Alexander e outros autores e que está a recolher testemunhos diversos (apelo à participação abaixo). À esquerda capa de outro livro (My kid is back) de June Alexander escrito com Daniel le Grange( Medical Center, Chicago University)
A solicitação de testemunhos (eng):
"ED sufferers and caregivers have an opportunity to share their experience in a new international textbook aimed at educating primary care health practitioners. The book, co-authored by June Alexander and Professor Janet Treasure (King's College London), will be published by Routledge (UK) in 2011. Carrie is among those contributing their story in this exciting new book.
June particularly would like to hear from you if you:
--have experienced DBT or know a family member who has;
--have experienced CBT;
--are an elite female athlete who has suffered AN;
--are an Hispanic family, or black family, whose child developed AN and the family assisted recovery through FBT; or
--are a sufferer of bulimia who has experienced/is experiencing a drug therapy strategy.
If you fit any of the above criteria, and are willing to share your story, please contact June who will arrange to collect your story via email, Skype or phone. Anonymity is assured unless specifically stated
. Write to June Alexander at june@junealexander.com or Carrie at carrie@edbites.com For more details about June go to http://www.junealexander.com/"

Nov 17, 2009

>> Coragem escreve-se com S

Coragem
2009-11-15 por Sofia
"Sou rapariga, tenho 16 anos e frequento o 12ºano.
Há já algum tempo que pensava em deixar aqui uma opiniao mas, só agora fui capaz de o fazer.
Sempre exigi o máximo de mim, levava o perfeccionismo ao máximo. Nunca gostei de mim mesma mas nao falava disso, como que essa omissao que eu fazia de mim me fizesse esconder dos "outros" - pura ilusão.
Há cerca de 3 anos atrás decidi começar a fazer uma dieta. E consegui. Perdi 5, 10, 15, 20kg; julgava-me capaz de controlar a situaçao e ignorava tudo aquilo que me diziam.
Perdi completamente a noçao da realidade. Quando dei por mim estava mergulhada numa anorexia e depressão profundas. Desliguei de tudo e todos. Deixei ter objectivos, sonhos, passatempos e estabilidade emocional. Vivia, para perder peso!
Era obcessivo: contava as calorias de tudo aquilo que comia, mentia aos meus pais sobre a comida (quando sozinha nao comia o que quer que fosse), era doentio!
A minha mae ja nao sabia como lidar com a situaçao. Muitas vezes quis desistir e eu também - aquilo nao era viver. Nada me dava prazer, excepto pesar-me e ver a balança sempre a descer.
A minha família definhava de dia para dia, como eu, de resto.
Nao dormia, nao comia, nao falava com ninguém, perdi a contas às vezes que deitei comida pela sanita ou na balde do lixo. Perdi-lhe a conta.
Poucos foram os dias em que fui para a escola sem ser a chorar - estava no limite, limite de tudo.
A agonia em que vivia parecia suplantar-se a tudo o resto; eu nao era feliz, queria parar mas nao conseguia. Queria parar mas já nao conseguia!
Viver daquela maneira era um suplício, algo que cada vez mais parecia ser impossível de suportar.
Os psicólogos, os nutricionistas, os avisos nada resultava. Embora (apenas parcialmente) consciente da debilidade que estava continuava a nao comer... Uma noite, após uma discussao enorme com os meus pais, tomei cerca de 14,15 calmantes. Queria dormir, dormir para sempre.
Nao tinha forças p'ra lutar mas, também nao era justo "obrigar" os pais a viver daquela maneira. (...) Ainda hoje, me culpo por esse acto (cobarde talvez mas, mais ainda, desesperado)
Ninguém imagina o que é o dia-a-dia de uma anorexia, ninguém imagina.
Ironicamente, a tentiva de a terminar talvez me tenha trazido de novo a ela, à vida!
Lembro-me, de chorar abraçada à minha mae e de lhe suplicar ajuda - uma ajuda "extra" que ela tantas vezes me ofereceu e eu tantas outras recusei. Aceitei, finalmente, a ajuda de um profissional. (A 1ª grande vitória de uma guerra que se arrastava há dois anos)
Cerca de duas semanas depois, fui à 1ª consulta com o Dr. Roma Torres; estava nessa altura do limite do peso mínimo e nessa mesma consulta o Dr. fez-me um plano alimentar. À medida que ele escrevia as refeiçoes, as lágrimas escorriam-me face abaixo. Pensava excessiva a quantidade de comida que ele me estava recomendar; De lágrimas nos olhos, vim para casa com o plano alimentar na mao. Nao o cumpri, minimamente.
15 dias depois lá estava eu para mais uma consulta, tinha perdido 2kg - o que era "proibido" de acontecer. Prometi ao Dr. e à minha mae que aquilo nao mais aconteceria e que na próxima consulta eu já havia recuperado o peso perdido. 15 dias mais tarde, lá estava eu novamente para uma consulta. O Dr. manda-me para o balança e o peso estava igual ao de há duas semanas atrás - nao tinha emagrecido, mas também nao tinha recuperado o peso como eu havia prometido.
Estava eu, o Dr. e a minha mae no consultório quando o telefone toca. Era a mae de outra paciente a ultimar os pormenores do internamento da filha - também ela vítima de uma anorexia nervosa. Eu, feita em lágrimas, e a minha mae assistimos à conversa do Dr. Roma Torres. Assim que termina a chamado, o Dr. olha para mim e diz-me "isto é o que lhe vai acontecer, senao começar a alimentar-se devidamente".
Uma vez mais, vim para casa a chorar. Estava como que presa num problema que me consumia, segundo após segundo. Mais uma discussao "forte" com a minha mae nessa noite. Discussao essa que me fez tomar consciência de que a poderia perder! A ela, aos meus amigos, à minha felicidade, ao meu futuro. O internamento era ... o "fim". Um fim que eu nao queria.
Estava na altura de dizer basta, com determinação e com vontade, de facto. A satisfaçao que o constante emagrecimento me provoca tinha de ser vencido pelo amor que eu ainda tinha à vida, aos meus amigos, à minha família e sobretudo a ela - à minha grande mae.
Por ela, por mim, por nós percebi que viver vale a pena! Sorrir vale a pena; lutar vale a pena; ser feliz vale a pena.
Hoje, melhor, ainda caio na tentaçao de olhar p'ras calorias ou de evitar certo tipo de alimentos. Ainda caio nessa tentaçao, mas cada vez menos.
Recuperei o brilho no olhar, a estabilidade emocional e familiar, o sonho da entrada em medicina, o gosto pela poesia e, sobretudo, o prazer de viver. Cada dia é, para mim, uma vitória, uma batalha vencida de uma guerra que cheguei a julgar ser incapaz de ultrapassar.
Hoje sei que nao é assim, o ser humano tem limtes de resistência enexcedíveis.
A todas (os) aqueles que se encontram numa situaçao como aquela que eu vivi, peço-lhes que Lutem, porque viver "vale sempre a pena".
Como um dia um amigo me disse, "é preciso viver nao apenas exitir e a vida é uma vitória mesmo que nem sempre ganhe"!
Coragem!
"
Este texto da Sofia foi publicado originalmente na página da afaab. Escrevi à autora a pedir autorização para a sua publicação neste blogue. Respondeu-me terminando assim:
"Mas o mais importante é vencer; histórias como a minha e como a sua são um incentivo à luta daqueles que se debatem com a guerra que é (sobre)viver numa anorexia. Tal como me ajudaram a mim, é com todo o gosto que disponibilizo o meu testemunho para ajudar todos aqueles que mais necessitam. Pois, quando frágeis, toda a ajuda nos parece pouca e, como tal, quanto maior os recursos fornecidos mais pessoas poderemos ajudar e maior é o conforto connosco mesmos.Nem que seja uma pessoa, já valeu a pena ter publicado o meu testemunho."
Obrigada Sofia !
Imagem: flickr andersn (aqui)

Oct 5, 2009

>> escrever sobre a anorexia

Causa-me alguma estranhesa existirem poucas páginas, blogues, etc construídos por pessoas recuperadas da anorexia e orientados para a discussão desse distúrbio alimentar. Não estou a referir testemunhos (que são abundantes) ou divulgação de livros sobre o assunto (que são alguns). Encontrei num site criado em 2006 por cinco norte americanos em diferentes fases da doença uma possível resposta para essa relativa escassez de páginas e blogues. O site está em vias de ser encerrado, ou melhor inactivado e transferido por decisão dos autores. Chama-se Disordered Times (ver ligações), nele se encontra abundante informação (em inglês) incluindo o texto justificativo da inactivação escrito por uma das cinco autoras:

"Este site irá ser encerrado, um dos motivos é porque "estou a numa situação em que estou a conseguir abandonar o meu distúrbio alimentar. Ele deixou de fazer parte significativa da minha vida, como fazia quando criei este site. De uma certa forma, ler e escrever sobre doenças do comportamento alimentar prolongou o processo [de recuperação] porque me manteve presa ao assunto. Agora é tempo de ficar liberta. Não estou completamente recuperada, ou irei esquecer aquilo porque passei. Mas é algo que sinto cada vez mais como fazendo parte do meu passado, não do presente, e espero nem do futuro. É tempo de fazer outras coisas." [esta autora criou o blogue oh the profanity!]

Sep 20, 2009

>> tive notícias da Valentina (venceu a ana)

Encontrei uma amiga da Valentina e fiquei a saber que esqueceu a ana. Desenvolve uma carreira académica brilhante no Reino Unido. A anorexia deixou-lhe danos na saúde física mas está a ultrapassá-los. Apercebi-me que a ana a tinha presa quando a reencontrei uns meses depois de ela se ter licenciado brilhantemente. Estava uma sombra da jovem sorridente, curiosa e entusiasta que eu conhecera. Convidei-a para almoçar e aceitou timidamente. Queria eu então falar-lhe da minha experiência e de como a tinha ultrapassado. Pensava eu que poderia ajudar. Mas não fui capaz de falar com ela sobre esse assunto. Faltou-me a coragem. Se cada uma de nós que esqueceu a ana fosse capaz de conversar abertamente com os outros sobre isso seria uma boa luta. Não acham? (Hoje eu já teria coragem de conversar com a Valentina e de lhe dizer tudo o que calei durante aquele almoço há anos...)

Sep 14, 2009

>> "Nunca me faltou nada..." Testemunho de Joana L.


Transcrevo abaixo parcialmente o testemunho de Joana L que relata agora com 19 anos (e sentindo-se bem melhor) um processo de anorexia que começou há 5 anos. Cada caso é um caso. Este relato impressiona -me pela descrição da coragem necessária para começar e continuar o tratamento. O testemunho não tem data. Gostaria de saber como está a Joana L. Acredito que também ela já esqueceu a ana.[os bolds são meus] Ler todo o testemunho da Joana aqui

Joana L. - Lisboa - 19 ANOS :
"Continuo sem saber como aconteceu. Um dia acordei e tinha em mim uma nova pessoa, uma força que me controlava até ao mais ínfimo desejo. Agora, mais afastada de todo aquele mundo de rituais, regras e prisões, consigo, ainda com alguma dificuldade, determinar um possível início da anorexia sem o situar precisamente.
Tinha 14 anos, frequentava o 9º ano e era-me impossível compreender o não se gostar do próprio corpo. Nunca me faltou nada: uma família sempre disponível, pais liberais, ballet, idas ao campo durante o fim-de-semana, enfim, não havia razão de queixa. Mas lá bem no fundo falhava qualquer coisa. Iniciei uma luta cega e depurei-me num combate contra mim mesma.
Perdi peso. E quanto mais quilos perdia mais vontade tinha de continuar. Estava agora no 10º ano e não tinha condições para frequentar o 3º período. Vegetava na cama. Corri vários médicos e nenhum deles quis ver o que eu também não lhes queria mostrar. [...]

[...]
Foi então que por segundos tive lucidez suficiente para pedir ajuda: falei com uma professora. Nem sequer a conhecia bem mas achei que era com ela que conseguia falar. Levou-me de imediato ao NDCA no Hospital de Sta. Maria. Durante o tratamento vivi períodos terríveis e outros melhores. As vésperas e os dias de consultas eram um pesadelo.
[...]
Mas o pior de tudo é confrontar-me com o Serviço de Medicina Interna, onde decorrem as consultas. Assim que vejo o hospital tenho vontade de fugir mas consigo enfrentar a fera. Depois de passar os portões demoro uma infinidade de tempo até entrar no edifício, é uma autêntica maratona , são quilómetros de medo.
[...]
Cheguei ao corredor decisivo. Ainda tenho que andar muito... Examino tudo e todos de alto a baixo. Os bancos de madeira insistem em ser decoração e ainda por cima atrapalham. É um corredor difícil de atravessar. Avanço sem sentir os passos. Nas paredes embrulham-se janelas que mostram um pátio interior gigante em obras. É assim que me sinto, como o pátio. Nunca lá estive, não o conheço mas tenho a sensação de já lá ter estado. É como se fosse feita de quatro paredes hercúleas, repleta de pequenas janelas e cada janela guardasse sorrisos, alegrias, tristezas, músicas, palavras, pessoas, recordações. Alguma coisa me chamou a atenção e não sei o que é. Já consegui atravessar metade do corredor.
[...]
Tenho 19 anos e sinto-me bem melhor. Tenho encontrado coisas novas. Só preciso de continuar a lutar."

Ler todo o testemunho
aqui

Jul 16, 2009

Mudar


Férias! Bom tempo para mudanças e planos e ...mudanças de planos!

E para esquecer a ana!
A ana detesta o imprevisto, a aventura e a descoberta que todas as férias trazem...
Foto CC (aqui)